Escrevi este texto em resposta a demanda da Carmen Rial, para defendermos o ensino de gênero na escola. Ele acabou ficando parado nos arquivos do meu computador, então resolvi publicar aqui. Poucos vão ler, mas taí um convite à reflexão sobre a reprodução dos papeis de gênero na nossa sociedade:
Embora
os debates sobre a divisão igualitária das tarefas domésticas entre homens e
mulheres tenham começado em meados do século XX, a questão permanece atual e
continua gerando discussões inflamadas e questionamentos entre os movimentos
feministas e a sociedade em geral. Não é para menos, dados da Pesquisa Nacional
por Amostra de Domicílios de 2011 mostram que, no Brasil, a quantidade de horas
dedicadas pelo gênero feminino às atividades de manutenção do lar chega a ser
2,5 vezes maior que a do gênero masculino. Resta a pergunta: quase um século
depois do início dos debates e com a significativa inserção das mulheres no
mercado de trabalho, porque a cultura da “rainha do lar” permanece quase
absoluta em nossa sociedade? Muitas são as possibilidades de explicação para
isso. O conservadorismo da sociedade brasileira tem sido bastante exposto
ultimamente nos projetos de lei e nos debates a respeito dos direitos (ou falta
deles) das mulheres sobre o próprio corpo, na incitação à violência de gênero e
nas questões referentes às diferentes composições de família, entre muitos
outros exemplos.
Os
debates públicos a respeito desses temas inflamam e trazem à luz situações anteriormente
invisíveis, pelo total descaso das autoridades e dos meios de comunicação.
Porém, mesmo que trazer a público essas questões seja importante para a tomada
de consciência, há um espaço em que o conservadorismo se reproduz sem que as
pessoas se apercebam: o cotidiano. É na vida diária, na execução de tarefas
repetidas praticamente sem reflexão que nossos comportamentos e valores
aprendidos se realizam e, concomitantemente, são ensinados para as próximas
gerações.
É
por conta destes comportamentos irrefletidos do cotidiano que a
responsabilidade pelas tarefas domésticas continua sendo predominantemente
feminina e a tendência é que assim permaneça durante muitos tempo ainda. Para
ilustrar esta afirmação, trago alguns resultados da pesquisa que realizei
durante três anos[ii],
acompanhando mulheres de camadas médias da população de Florianópolis em suas
compras de abastecimento doméstico em supermercados.
A pesquisa mostra que as compras de abastecimento,
como forma de organização e planejamento do dia-a-dia doméstico, são extremamente
eloquentes para a interpretação da cultura e de sua reprodução, incluindo-se aí
a divisão das tarefas entre homens e mulheres, e a maneira como meninos e
meninas são iniciados na arte de comprar e, consequentemente, administrar um
lar.
“É tudo comigo”: compras e trabalho doméstico - Não é necessário muito esforço de imaginação para
relacionar as compras de provisão com as tarefas de manutenção da vida
cotidiana. Cuidados com a casa; alimentação e higiene pessoal; prestação de
serviços físicos e psicológicos; administração da unidade doméstica; e
manutenção da rede de parentesco e de amizade são, em geral, responsabilidades
principalmente das mulheres e os materiais necessários para sua execução podem
ser encontrados nas listas de compras de supermercado. As listas representam o
planejamento para a administração de todos os aspectos necessários para que a
casa e a família funcionem corretamente como unidade e como parte da sociedade.
Entre
as mulheres que acompanhei, a maioria considera a si mesma como a única
responsável por essas tarefas. Algumas se sentem responsáveis inclusive por
comprar roupas para seus maridos. A resposta mais comum à pergunta sobre
tarefas de abastecimento e administração do lar foi “é tudo comigo”, expressão às vezes acompanhada de reclamações pela
sobrecarga de trabalho que isso representa. Junto com a queixa pelo
acúmulo de trabalho, vem também a crítica contundente em relação à competência
dos homens para as compras, ou seja, na
opinião dessas mulheres, “eles não sabem comprar.” Mesmo as que afirmaram que
são os maridos que vão ao supermercado acabaram por assumir que são elas que
preparam as listas.
É
importante notar que as queixas e críticas reproduzem as pressões culturais
sobre o papel das mulheres como provedoras do bem-estar doméstico, acompanhadas
pelo significado de ser uma boa mãe e boa dona de casa, mesmo nos dias de hoje.
Isso significaria dizer que há, nas compras de abastecimento doméstico
realizadas por mulheres, pouca autonomia, sendo caracterizadas mais como um
trabalho a ser realizado em nome de uma família que deve ser alimentada e
cuidada.
Feminino e Masculino no Supermercado - A pesquisa mostra as diferenças
concretas e de significados entre compras realizadas por homens e compras
realizadas por mulheres, estejam juntos ou separados no supermercado. Às
mulheres cabem as escolhas dos produtos de limpeza, da alimentação do cotidiano e da manutenção geral da vida
doméstica – aquelas que só são percebidas caso faltem. Aos homens cabem as
compras consideradas lúdicas: bebidas, a carne do churrasco do final de semana,
os biscoitos e aperitivos, etc – aquelas percebidas como especiais.
Quando os homens vão ao supermercado guiados pelas listas que suas
mulheres preparam não é raro usarem o celular para confirmar a marca escolhida,
como aconteceu com Antônio, professor universitário, que ao ligar para sua
esposa para confirmar um pedido explicou: “sabe como é a Taís, né? Se eu chego
em casa com o produto errado, vou ouvir a semana inteira.”
De
um modo geral, as compras masculinas têm maior visibilidade. Primeiro pelo fato
de serem, na maior parte dos casos, exceções. Segundo, porque tendem a comprar
em maior quantidade. Enquanto as mulheres entrevistadas encaram, na maior parte
do tempo, as compras como trabalho e manifestam sua insatisfação com a
obrigação de cumpri-lo, os homens dizem gostar. Talvez gostem porque suas
compras não são revestidas da responsabilidade de suprir o necessário para o
dia a dia.
Filhos e Filhas no supermercado - As crianças começam a ser socializadas por suas mães
no mundo das compras antes mesmo de aprenderem a andar ou falar. Aprendizados
sobre os papéis de gênero explicitam-se na observação de mães e filhas e nos
relatos das compradoras a respeito de seus filhos. Enquanto as meninas caminham
pelo supermercado com suas mães, participando das compras, ajudando nas
escolhas e criticando a capacidade das mães para as compras, os meninos têm o
direito de negar-se a acompanhar suas mães, comprar o que desejam, ou, quando a
família está reunida na loja, acompanhar o pai nas compras de produtos lúdicos
e/ou na exploração das novidades interessantes, como forma de se entreterem
durante o processo de compras de abastecimento realizadas pela mãe.
A reprodução
– Os resultados das observações feitas durante três anos indicam que mesmo
mulheres profissionais de nível superior reproduzem, em seus cotidianos, os
valores conservadores que permeiam a sociedade. Embora reclamem da sobrecarga
de trabalho, concentram as responsabilidades sobre as tarefas domésticas,
desconsiderando a possibilidade de dividi-las com os maridos. A primeira frase
que usam para descrever suas compras é uma afirmação de si e de seu modo de
fazer que, para cada uma delas, é exclusivo: “Eu faço assim”. Através da observação das práticas de
compras fica evidente que fazem de acordo com o que aprenderam, e é evidente,
também, que valorizam sua capacidade de dominar o espaço doméstico. A confiar
em seus discursos, governam, quase absolutas, o reino da casa e as relações
familiares e perpetuam esses valores através da forma diferenciada com que tratam
meninos e meninas, no caso desta pesquisa, no espaço do supermercado.
[ii] A tese resultante desta pesquisa, “Mamãe vai ao supermercado: uma
abordagem etnográfica das compras para o cotidiano” pode ser encontrada em https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/96415/302787.pdf?sequence=1