quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Viver no Rio

O Rio de Janeiro continua lindo e quente. Muito quente!

Já estou aqui há quase seis meses. Não canso de descobrir a cidade. O que há de bom, muito bom e o que há de bem ruim. No balanço geral, estes primeiros seis meses me dizem que fiz a escolha certa. Estou satisfeita de enfrentar, aos mais de 50, o desafio de viver em uma cidade nova, criando novos laços, estabelecendo novas redes.

Se nos primeiros seis meses o trabalho remunerado foi escasso, o ano de 2013 promete bastante trabalho. Estou animada por estar em uma cidade maior, com mais oportunidades, mais coisas acontecendo.

Mas falemos do Rio de Janeiro, a cidade maravilhosa. O que há de bom aqui? Uma das coisas que me encanta é a diversidade, as possibilidades tanto geográficas quanto culturais. Assim como estamos no meio do fervo, com trânsito, barulho, mau cheiro, calor, podemos pegar o carro e subir para a Floresta da Tijuca, ver o verde, sentir o cheiro do mato, ouvir o silêncio. É o que temos feito nos finais de semana, recarregando as baterias para enfrentar o cotidiano de filas imensas no supermercado e muito barulho.

Ali atrás, a mesa do imperador. Perto da Vista Chinesa, construída em homenagem aos cnhineses que foram importados para o Brasi com o intuito de que plantessem arroz nos morros. Não deu certo. Trabalharam na construação da estrada. Que bom!
Hoje, depois de viver um tempo aqui, concluo que teria sido melhor procurar um apartamento em Copacabana, onde as calçadas são mais largas e o comércio mais rico. Botafogo, um bairro antigo, tem lá seus encantos também. As casas e palacetes, preservados ou não, dão diariamente novas perspectivas sobre o tempo, fazem viajar na história. A caminhada do metrô até em casa, com vista para o Cristo, também fazem viajar.

E, por falar em história, aqui a gente pisa na história do Brasil hegemônico o tempo todo. A curiosidade aumenta, a gente liga o lugar à história estudada na escola e tudo se torna mais claro. Exemplar é a visita ao Palácio do Catete. Mas não única possibilidade de viver a história. Por outro lado, quando digo "Brasil hegemônico", me refiro ao fato de que, aqui, os outros Brasis não são referenciados com muita frequência. De certa forma, vive-se como se fosse uma síntese do país. Sul, norte, nordeste só existem por conta da quantidade de imigrantes destas regiões. Estranho.

Aos poucos, os moradores que conheço vão me apresentando a cidade. Explicando seus detalhes, as formas de convivência, os valores que a permeiam. Estas descobertas só me enriquecem e, às vezes, me irritam. Como descobrir que, em alguma medida, esta é uma cidade sem lei (menos do que já foi, mais do que deveria ser). As diferenças nem tão sutis entre a zona sul e a zona norte da cidade também são uma surpresa para quem sempre veio para cá como turista.

Vista do Morro do Cantagalo
 
Uma das coisas bacanas que me aconteceram aqui, foi ter feito um trabalho "etnográfico" visitando famílias de diferentes perfis, moradores de diferentes bairros e comunidades. Me permitiu conhecer um pouco mais das profundas diferenças que existem e que se observa ao andar nas ruas, mas observa-se melhor ainda ao entrar nas casas de classe A, B e C. Andar pelos morros é também uma atividade atraente, que, feita com um olhar mais apurado, ensina muito sobre a vida da cidade e as diferenças no Brasil.

Estátua do Micheal Jackson, Morro Santa Marta

Fico animada, encantada, estimulada, com as muitas possibilidades de conhecer, trabalhar, pensar. Saber que sempre está acontecendo alguma coisa, mesmo que eu fique em casa porque o calor está demais. Que os cinemas, com filmes variados, fica a menos de 1 km de casa. Que qualquer ônibus que passa ali na Voluntários ou na São Clemente, me leva a qualquer lugar. Que as ruas do centro guardam tesouros de arquitetura impressionantes. Que na biblioteca Nacional posso consultar qualquer livro publicado no Brasil. Que na minha rua tem um museu e na rua logo abaixo tem outro, e na rua do lado tem mais uns dois ou três. Dia desses, saímos para uma caminhadinha noturna e quando vimos estávamos dentro de uma Vernissage.

As possibilidades parecem não se esgotar nunca. Não paro de recordar as muitas experiências que já vivi aqui. E, claro, tem as praias!

Amo esse movimento, este fervilhar. Era disso que eu precisava, agora.
 

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Simpósio temático no Fazendo Genero - call for papers

Dear All,

We proudly invite you to participate in the Thematic Symposium 019 - "Consumption and Gender: problematizing discourses and practices", that will take place during the International Seminar Fazendo Gênero 10 - Desafios Atuais dos Feminismo (Doing Gender 10 - Current Challenges of Feminisms), in Florianópolis, Brazil, 16 to 20 of September of 2013.

You can submit your paper until March, 20th.


Thematic Symposium abstract:


Several studies from different approaches and conceptions based on common sense consider women as “consumption experts”. Besides, different perceptions and understandings about the male and female role in consumption may be observed nowadays. There are also studies that take housekeeping and consumption as part of women’s domestic work, that are invisible in the everyday life.
These different approaches reveal not only gender perspectives but also stereotypes and assymetries that associate female and male with some activities and practices, with more or less social prestige.
Generally speaking, consumption are getting increasingly more relevant in academic, political and social spheres due to its recognized implications in the environment and the future of the planet. Discussions about the systems of production, consumption and discard of goods and services tend to understand the consumers as responsible, in their daily decisions, for issues that go beyond the simple satisfaction of their families needs. These reflections from the perspective of both environment and gender make clear the political dimensions of consumption and its role in social changes.
Studies of consumption practices and discourses also grow in relevance since they are part of broader social relations. They are linked to other realms of human experience permeated by gender conceptions, gender relations, social class, race and ethnicity, age, among many other variables. In this sense, diverse forms of consumption are part of the domestic arrangements, kinship relations, processes of individual and group identification. In other words, consumption is part of the everyday life.
This Thematic Symposium aims to bring together papers that problematize the relations between consumption and gender, in various modalities: food, clothing, transport, leisure activities, technologies, media images, etc

We will accept papers that analyse how gender shapes practices and discourses on consumption and is intersected by variables, such as social class, race/ethnicity, age, among others. We also propose a critical view of stereotypes and representations that surface from consumption practices and discourses.

We are looking forward to your submission!

Best regards
Eu e Viviane Kraieski
 
(sei que ninguém lê aqui, mas vai que...)

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

E hoje começa uma nova etapa

2012, um ano cheio de mudanças, fins, começos, recomeços e novos fins e novos começos, recomeços...

Daqui a pouco, vou para o aeroporto buscar o Alfredo que, mal chegado no Rio, em julho, partiu para Joaçaba para trabalhar. Estava pensando: quando alguém me perguntar quando foi que começamos a morar junto, direi que foi no dia quatro de outubro de dois mil e doze. Antes, só rachamos as contas.

Imagina só minha ansiedade! Para reduzir um pouco, fui para a praia. Primeira praia mais ou menos boa que pego desde que cheguei ao Rio. Antes disso, só uma vez coloquei o biquini, mas estava tão frio o vento que não deu nem pra tirar a roupa.

Então, lá vou eu, para o Santos Dumont, buscar o elemento que faltava para começar mais esta etapa. Eu só quero, agora, um pouquinho de estabilidade.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

choques culturais

Tem aquela anedota, clássica já, sobre o gaúcho, o paulista e o carioca negociando. O gaúcho pergunta: que vantagens tu levas, tchê? O carioca pergunta: que vantagem eu levo, merrmão? E o paulista pergunta: que vantagem nós levamos, meu?

Se isso é verdadeiro, não sei. Sei que eu, uma gaúcha, estou vivendo uma experiência que faz com que a anedota seja meio verdadeira. É uma experiência que faz com que eu compreenda, na prática, a noção de mais valia. Meu tempo de trabalho valendo muito pouco e minha capacidade de trabalho sendo explorada ao máximo. Estou em estado de choque. Me pergunto se é choque cultural.

Sei que não dá para afirmar que este é o jeito carioca de fazer as coisas. Mas me faz colocar dois pés atrás. E bate uma saudade de um tempo que nem sei se existiu.

Ainda bem que amanhã se encerra o período em que enfrentei os choques culturais sozinha. Alfredo volta e mais uma mudança se desenha no horizonte: dividiremos o mesmo teto, agora sem perspectiva de um ir para lá e outro para cá. Como será?

domingo, 16 de setembro de 2012

Semana bem movimentada

A última semana foi ótima, sem tédio algum. A única chatice é estar com o ouvido entupido e, por isso, ter dificuldade de ouvir e falar. Mas segunda vou ao médico e espero que tudo fique resolvido. Mas, vamos à semana...

Teve o ENEC - Encontro Nacional dos Estudos do Consumo. Evento que a cada edição fica maior e mais interessante. Oportunidade excelente e quase única no Brasil para se discutir, conhecer e trocar informações com outros pesquisadores da área. Muitos contatos, satisfação em ver que a minha pesquisa do doutorado gera curiosidade, satisfação em ver coisas boas sendo produzidas. Tá, claro que tem trabalhos não tão bons, frustrantes, na verdade. Mas é bom que as pessoas comecem por algum lugar. Quer dizer, os trabalhos fracos tem potencial para se tornarem bons trabalhos graças a esses espaços de discussão sobre o tema.

Por conta do ENEC, Valéria, uma amiga da UEM (Universidade Estadual de Maringá) ficou hospedada aqui em casa. Delícia de companhia, delícia ter companhia em casa. Dá ânimo para sair e para voltar!

No sábado, fui com outras amigas, a Sandra e a Michele, fazer o Tour do Museu da Favela: "Roteiro Casa Tela". Não completamos o cirucuito, mas já foi bem interessante. Eu recomendo a quem se interessar. Márcia, nossa guia e voluntária no Museu, foi fantástica e não poupou esforços para responder a todas as nossas perguntas, contando histórias e detalhes da sua vida na comunidade, desde a infância. Márcia diz que mora no "melhor lugar do mundo! Morar no morro é chique! E morar em Copacabana e Ipanema também"

Bom, exageros à parte, a vista é linda e, pacificada, a favela é um lugar interessante para se passear. Caminhar pelo Cantagalo me fez lembrar das caminhadas pelas ruelas de Santorini, na Grécia. O que, talvez, não seja uma possibilidade de comparação tão absurda assim, já que uma forte especulação imobiliária tem acontecido por ali (aliás, tema que já ouvi sobre outras comunidades cariocas). Estudantes alugam casas ali por serem mais acessíveis, estrangeiros compram imóveis, constroem albergues, etc. A questão é: para onde vai a população que hoje reside no morro? Como vão legalizar todas aquelas construções? que consequências essa legalização ou formalização têm? e por aí vai.

O lixo é um entre tantos problemas. Estavamos esperando o começo do passeio quando de algum lugar duas sacolas cheias de lixo foram arremessada para um terreno mais abaixo. Levamos um susto com o barulho e, ao olhar para o local, vimos que ali é um "lixão".

Do terraço do Museu, Marcia apontou para o espaço que pertence ao Projeto Criança Esperança dizendo: "aquilo ali é do Criança Esperança. Fica fechado o tempo todo." Não me surpreendeu a informação!

Conforme caminhávamos entre as casas, as pessoas nos cumprimentavam, sorriam, pediam desculpas por algum transtorno. Não foi difícil, com uma guia, é claro, circular por ali.

Para mais informações sobre o tour e sobre a organização Museu da Favela, consulte o site http://www.museudefavela.org/

Algumas fotos do comércio na favela (não poderia deixar de chamar a minha atenção e me dar vontade de conhecer melhor como funcionam as compras de provisão por ali.)
Padaria que, de acordo com Márcia, cresceu muito nos últimos anos

Um optometrista, morador da favela, abriu uma ótica e atende a população local.

O bar do Seu Manoel era onde Marcia, criança, entrava na fila do pão diariamente.



 

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Preciso de gente!

Passei o final de semana em Florianópolis, dando uma de turista na cidade que me abrigou por 18 anos. Foi bom. Especialmente porque fui encontrar o Alfredo, que está trabalhando em campanha em Joaçaba e porque me reuni com amigos para uma super divertida feijoada. Voltei ao Rio no domingo à noite, já na hora de dormir. A segunda-feira foi agitada, preparando material para a reunião de tarde toda que teria sobre o trabalho que estou fazendo. Veio aqui a Solange, colega neste trabalho. Almoçamos juntas, conversamos bastante. Foi ótimo!

Chegou a terça-feira. Eu tenho o que fazer, mas o sentimento de solidão tá batendo forte. Não tenho compromisso com ninguém hoje e, descobri, sou um ser essencialmente social. Preciso das pessoas, preciso que precisem de mim. Preciso companhia para o almoço. Preciso falar sobre o que estou fazendo. Preciso trocar ideias e percepções. Simplesmente, preciso! Principalmente depois de tantos dias de agito, fica tudo meio vazio.

 

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Quem tem tempo pra escrever no Blog?

Eu ando completamente sem tempo. Não é bem sem tempo para escrever. É sem tempo para pensar, refletir, elaborar as experiências que ando vivendo e transformá-las em uma postagem relativamente interessante.

Estou descobrindo o Rio de Janeiro. Primeiro, descobrindo como viver nesta cidade. Como andar de um lado para o outro, que ônibus pegar, qual o melhor supermercado para ir, onde almoçar, como criar uma rotina para a vida. Ainda não me sinto em casa. Os barulhos do prédio e da rua não são conhecidos, os lugares são sempre novos, mesmo que eu passe pelas mesmas ruas praticamente todos os dias.

Uma das características do Rio, comentada por muitos, é que as pessoas vivem seus bairros ou, abrindo um pouco mais o leque, suas zonas (Zona Norte, Zona Sul). Neste sentido, já estou uma "carioca". Concluí que não estou morando no Rio de Janeiro,moro em Botafogo, com incursões ao Humaitá (fica do lado) e ao Flamengo (do outro lado). Eventualmente, um pulinho no Leme para visitar a Evelise ou para trabalhar...Carro, aqui, não me fez falta. Quer dizer, talvez, se eu me animasse a dirigir, eu fosse a alguns lugares de carro, mas os ônibus e taxis são abundantes e, especialmente para se deslocar na Zona Sul, não são caros.

Estou, também, descobrindo como trabalhar.. Aqui parece, realmente, ter mais oportunidades de trabalho para mim. Já estou ocupada com um freela de pesquisa (trabalho que fui fazer no Leme) e parece que já tenho algo engatilhado para quando este acabar. Bem bom. Ao mesmo tempo, o ritmo é outro, diferente do ritmo a que eu tinha me acostumado durante os quatro anos do doutorado. Sei lá se é o ritmo da cidade, se é o ritmo das mudanças, se é a minha própria constituição física e mental ou a faixa etária em que me encontro, às vezes me sinto tonta.

Talvez me sinta tonta porque não ande dormindo muito bem. Acabamos escolhendo um apartamento em uma rua barulhenta, num prédio barulhento. Meu quarto clareia cedo (o blackout que coloquei não resolveu o problema), o movimento na rua e no prédio começa às 6h30, Frederico começa a miar, eu acordo com vontade de dormir mais, não consigo. Às 7h30min começa o barulho de escola, as buzinas no trânsito, às 8h, começam as marretadas em algum apartamento em reforma - o prédio é grande, tem sempre algum apartamento em reforma. A cabeça começa a latejar no ritmo das marteladas.

Preciso me arrumar e sair. vou trabalhar.



quarta-feira, 11 de julho de 2012

A mudança que nunca acaba

Há muito não escrevo. Tenho andado tão ocupada com mudanças que não sobra tempo para cuidar de outros assuntos. Ao todo, mexi em cinco casas: a minha, a dos pais do Alfredo, a do Alfredo e a do Daniel, que ficou uma gracinha. Deveria já estar com prática, mas posso garantir que se dependesse disso para viver, morreria de fome. As coisas me confundem, me deixam ansiosa, e, durante todo o processo de mudança, muitas vezes eu quis voltar atrás. Em todas, já era tarde demais. Dar destino a coisas para cuidar do destino, este é o resumo de uma mudança.

Agora já sou moradora oficial do Rio de Janeiro. O apartamento que alugamos ainda está pela metade. As coisas de Floripa não chegaram´, nem os móveis da cozinha. Sento no chão para escrever. A internet não pega em todos os lugares do apartamento. Meus livros, a cadeira e a mesa do escritório estão no caminhão, que só deve chegar no final da próxima semana. Temos, em casa, 20 caixas para abrir, mais as caixas que vêm de caminhão, perto de 30. Só de imaginar fico zonza.

Além do desafio de por a casa em ordem, ainda vem o desafio de encontrar trabalho e viver sozinha no rio pelos próximos 2 meses e meio. Alfredo vai trabalhar em campanha no interior de Santa Catarina. Eu vou ficar por aqui.

Mas o Rio é uma cidade a desvendar e terei bastante com o que me ocupar nos próximos meses. Dos detalhes domésticos como cortinas, ar condicionado, arrumações aos detalhes acadêmicos e profissionais, nos quais não tenho tido tempo para pensar, ainda.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Rio de Janeiro, te estranho

Estou aqui, com endereço, telefones, internet, mas ainda sem emprego.

Vim parar aqui por conta de meu espírito aventureiro, de uma série de coincidências, conjuntura astral ou seja lá o que for. Mas fácil não está, não.

Foi difícil encontrar apartamento. Vimos vários, todos horríveis, velhos, mal cuidados. Todos caríssimos. Escolhemos um bem localizado, até bem conservado, com vista para o Cristo e uma nesga de vista para o mar. Nossa ficha não foi aceita. O tempo correndo contra nós. Encontramos um outro. No desespero, não vimos os detalhes, só o astral que é bom: arejado, iluminado, com sala ampla. Alugamos. Aluguel igual a soma dos aluguéis de nossos apartamentos em Floripa, fora condomínio e outras taxas. Na chegada, um susto. Mal conservado, cheio de defeitos, um banheiro marrom, o outro cor de rosa, pias entupidas, vazamentos. Pintamos tudo (menos os banheiros e a cozinha, que merecem uma pintura também), trocamos interruptores e tomadas, instalamos plafons e ventilador de teto, colocamos os armários da cozinha abaixo para substituir por uns novos que ainda não estão prontos. Trouxemos a mudança -a primeira etapa, as coisas que estavam na casa dos pais do Alfredo que foi desmontada. Muitas coisas, coisas demais. A maior parte ainda encaixotada, esperando os armários, esperando decisões.

Desespero, medo, pavor: estamos fazendo a coisa certa?

Em Floripa temos apartamentos em bom estado, com cozinhas lindas.Cada um tem o seu. Temos amigos, muitos. Temos o Ribeirão da Ilha, Santo Antônio de Lisboa, a Lagoa da Conceição. Ah, a Lagoa da Conceição. As ruas mais limpas, as casas mais novas. Em Botafogo, as ruas são sujas, as fachadas pretas de fuligem dos carros. Estranho.

Buzinas e sirenes, música da escola de dança em frente, cantoria dos índios no museu do índio que fica na rua, som de carros, o apito do portão da garagem que se abre. Sons que invadem o apartamento pelas janelas e paredes. Movimento de cidade grande. Estranho.

A menos de 1 km, a estação do metrô. Ônibus para todos os lugares passam ali na esquina. Vou ao supermercado, ao banco e ao comércio em geral a pé. Bons restaurantes, cinemas, tudo a poucos passos de casa. Bom, sim. Dependo menos de um carro. Agora moro no fervo. Estranho. Preciso me habituar. Era o que eu queria, eu dizia.

Sinto falta do Campeche, onde morei nos últimos meses. Tédio e marasmo. Silêncio e tranquilidade. Opções.

Não há lugar em que não recebamos um cumprimento. O Rio de Janeiro é, mesmo, uma cidade sociável. Ninguém passa sem dar bom dia, boa tarde, boa noite. Comentários, chistes, simpatias por todos os lados. Pressa e mau atendimento no supermercado, na farmácia e em lojas mais povão. Contradições. Estranho.

Diferenças sociais bem marcadas: por cinquenta por mês, o porteiro lava o carro duas vezes por semana. O fornecedor de esquadrias de alumínio, só pq o contratamos para fazer uma esquadria, me chama de madame. Nas cozinhas do Leblon, no lar onde agora vivem os pais do Alfredo, não há lugar para que as enfermeiras e empregadas sentem para almoçar. Desumano. Estranho.

Saudades do conhecido sul. Um estranho sudeste para desvendar. Excitante, assustador, estranho.

 E tudo é Brasil.


quarta-feira, 2 de maio de 2012

Mudanças...

Pois então, depois de algumas semanas de correria, desmontando um apartamento, parece que já dá para ver um período de calmaria pela frente. Curto, é certo. Depois dessa primeira mudança, virá mais uma e realmente significativa. A calmaria que posso avistar diz respeito ao período entre mudanças.

Estou cansada, é certo também. Tenho bastante trabalho intelectual para retomar e não consegui encontrar, ainda, o ânimo necessário para me dedicar aos 5 textos que devo escrever até o final do mês. Aos poucos, também, vou entrando no ritmo da produção acadêmica de novo. Espero.

O apartamento da Cesar Seara ainda não está totalmente vazio. O prazo é esta semana. Todos os dias vou pra lá e vejo mais um pedacinho da história da minha vida ir-se pela porta. São só coisas, mas, sendo humana, impossível deixar de significá-las. A máquina de lavar, de 1983, ano em que a Betina nasceu, é emblemática da mudança. Dói vê-la partir. O segredo, porém, é deixá-la ir para novas e interessantes coisas entrarem pelas portas da vida...ui, filosofia auto-ajudática a essas alturas, Maria?

Essa função toda de mudança, mais o qeu vi e vivi no Rio com os pais do Alfredo e o desmonte do apto lá, acrescidos da visita à minha mãe em Porto Alegre, que agora vive em uma residência para idosas, me faz pensar muito sobre as coisas. Ainda não consegui colocar em palavras os sentimentos e as percepções sobre o tema, mas ele segue me "atormentando".

Em PoA, enquanto passeava com minha mãe pelos jardins de seu novo lar, olhava para dentro dos quartos da mulheres lá hospedadas. Olhar para aqueles quartos cheios de coisas - mesas, fotos, microondas, cama, colchas, cadeiras, abajours, cadeiras, poltronas, me lembrou o livro do Danny: The Comfort of Things. Até que ponto aquelas coisas todas dão às idosas o conforto necessário para enfrentar o dia a dia?

Talvez "hospedadas" não seja a palavra certa para definir o status das mulheres, elas são moradoras de lá! Não é porque estão no fim da vida que seus quartos devam parecer quartos de hotel. Não devem ter aparência de temporários. Os quartos lá, são como as casas que montamos durante a vida: definitivos. São lugares para viver, não lugares para esperar pelo fim.

Mudanças são isso: são momentos em que montamos espaços definitivos que, muito provavelmente, terminarão em um determinado momento para montarmos um novo espaço. O importante, digo sempre para o Daniel (meu filho), é montar um lugar onde vamos viver bem, vamos comvidar os amigos, vamos ter prazer e um sentimento de conforto.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Desmontar casas

Enquanto no apartamento dos pais do Alfredo, no Rio, uma equipe faz um inventário das coisas e prepara um leilão, aqui, eu empilho coisas para dar para amigas e para instituições de caridade.

Os sentimentos se confundem. A cabeça dá um nó: seria melhor fazer um "garage sale"? Não consegui vender as coisas, preferi dar. Ao mesmo tempo, sinto-me meio "trouxa" por dar em vez de vender. Onde já se viu uma publicitária que não consegue vender? Talvez por isso eu não tenha seguido bem na carreira! hahaha

Mas a verdade é que são vidas em desmonte, para remonte, reordem, re tudo.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Minha vida de estudante...

Hoje fui pra UFSC entregar a tese na biblioteca e encaminhar os documentos para a confecção do diploma. Simples, não? Não, não é simples.

Depois que entreguei a tese, começou uma forte emoção. Olhei em volta, na biblioteca, os estudantes sentados em diversas mesas, com seus laptops ou netbooks abertos, livros por cima das mesas, filas nos guichês de empréstimo e devolução e eu pensei: puxa, aproveitei muito pouco desta biblioteca. Em seguida, já na rua, a emoção continuou. Ver o movimento de alunos circulando pela área aberta da universidade me fez pensar em como foi bom esse período de estudante "tardia". Foram quatro anos circulando por aquele espaço como aluna, aproveitando o que ele tinha para oferecer: os encontros com o conhecimento, os encontros com amig@s velh@s e nov@s , conquistados ali mesmo, entre livros, cafés, e gente. Peguei a câmera e comecei a fotografar os espaços e pensei: esta é a série "Minha vida de estudante".

Reitoria

Centro de Eventos, altos cafés com a galera!



pessoal da secretaria, super força pra gente

térreo do cfh...cafeteria e livraria

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Ando tão envolvida com as coisas...

Pois é. Período de mudanças radicais, de mexer em coisas, de pensar sobre as coisas.
As coisas são importantes. Elas têm um papel preponderante nas nossas vidas. São objeto, resultado e significação de nossa cultura. Contam histórias, circulam na família, nas redes de amigos.

Ao circularem, as coisas criam novas redes.

Como a cama que mandei fazer quando casei, há 33 anos, e que me acompanhou em diversas mudanças durante 27 anos. Depois de uma reforma no meu quarto, por ser grande demais, a cama foi mandada para a  casa de uma amiga, que dormiu nela por cinco anos. Quando minha amiga se mudou, mandou a cama para ser guardada na garagem de outra amiga nossa que, depois de um ano, perguntou se poderia emprestar a cama para uma amiga dela. E lá foi a cama, servir a outra casa, a outro casal.

O interessante, neste caso da cama, é que não quero vendê-la, nem perdê-la de vista. A cama vale muito mais do que qualquer quantia que alguém possa se dispor a pagar por ela. Porque é bonita, porque conta histórias, porque representa meu ingresso na vida adulta, sei lá porque não quero me desfazer da cama. Talvez porque nela eu tenha criado meus filhos: viamos TV em baixo de cobertores, juntos, nos invernos portoalegrenses. O Daniel, pequeno, deitava na cama para ouvir música clássica na rádio da universidade. Nela, outras aventuras foram vividas (imagine-se). Mas é só uma cama, diriam uns, aparentemente menos materialistas...Não, não é só uma cama.



Pensar sobre as coisas é tão importante que muitos autores escrevem sobre isso, como o Danny Miller e o Apadurai...Danny escreveu o livro "stuff" e o "The confort of things", falando justamente que as coisas não são só coisas. Influenciada por ele, enquanto acompanho o desmonte da casa dos pais do Alf, no Rio, penso nas coisas. Enquanto planejo minha própria mudança, penso nas coisas.

Danny, no encerramento do livro Stuff, escreveu:

"As an anthropologist my method could best be described as ethnographic involvmentes intended to lead to empathy; the desire to see things from other people's points of view. But I guess, at the end of my quest, I have not just empathetic to people, but even empathetic to the things them selves...the way things are constantly humilated as the mere symbolic representation of person and society. Because denigrating material things, and pushing them down, is one of the main ways we raise ourselves up onto apparent pedestals." (2010, p. 156)


quarta-feira, 4 de abril de 2012

Lua quase cheia

E cabeça também. Estou cansada de tanta coisa por fazer, decisão por tomar, ideias por ter que nem consigo dormir direito ultimamente. É mais ou menos assim: vc termina o doutorado e pensa "e agora?"

Pois é, to no maior "e agora?", possibilidades mil, providências idem. Vai saber o que reserva o futuro.

Enquanto isso, admiro a lua que brilha no céu da calorenta Floripa pra ver se ela me inspira.

domingo, 25 de março de 2012

O Rio de Janeiro continua lindo e dando trabalho!

Espero que dê muito mais trabalho, que venha um bem remunerado.

Estou aqui desde a última terça-feira. Na casa dos pais do Alf que devem se mudar para um lar geriátrico na próxima terça. Tenho me dedicado a ajudar nos preparativos da mudança, selecionando roupas, embalando coisas, ajudando na alimentação e nas compras de supermercado e farmácia, dando atenção aos dois e muito mais. Dá mesmo muito trabalho envelhecer. Tanto para quem envelhece, quanto para quem toma conta.

Enquanto a gente se desdobra para organizar a vida da casa, também procura casa (apto) no Rio. Que caros estão os aluguéis. Decisão difícil essa de mudar para cá, já que a vida está muito cara na cidade. Mas eu, por enquanto, continuo firme no propósito. às vezes, cansada, penso na mão de obra. Mas logo passa, e penso na aventura que é uma mudança de cidade, descobrir os caminhos, os lugares, etc. Respirar esse ar de cidade grande, mais cosmopolita.

Ando pelas ruas do Rio e penso no período que passei em Londres. As cidades se assemelham no tamanho, no trânsito movimentado e parado, nas facilidades 24 horas, nas mais variadas línguas que se escuta em uma pequena caminhada entre a casa e o supermercado. São diferentes, é certo. Mas semelhantes na correria. E eu tô curtindo muito mudar pra correria!

Se bem que estamos num impasse. Alf gosta dos apartamentos mais isolados, silenciosos. Eu quero morar perto do fervo. Quero andar a pé, evitar o automóvel, aproveitar do transporte público que é bem bom aqui. Vamos ver como resolveremos...

Hoje fomos ao cinema. Coisa que, em geral, faço mais qdo estou aqui do que qdo estou em Floripa. Não peguei praia nenhum dia, apesar de estar de frente para ela, por enquanto. E minha máquina fotográfica está temporariamente aposentada. Vou reativa-la para começar a postar aqui minhas percepções visuais do Rio de Janeiro. Passo a ter mais o que contar, quem sabe.


sábado, 17 de março de 2012

Pronto. Sou Doutora!

A  gestação de quatro anos culminou com uma bela banca, extremamente animadora, com sugestão de publicação, cometários estimulantes dos amigos e etc, como sói acontecer nessas ocasiões. Fiquei bem feliz! Claro que meu superego super malvado fica dizendo que é sempre assim, que se tivesse algo ruim ninguém ia falar, e blablabla....

Mas  digamos que foi legal, mesmo.

Agora é o momento da "depressão pós-parto". De lembrar o sofrimento do trabalho de parto (período pré-banca): uma grande tensão, exercícios de imaginação para adivinhar o que a banca diria e perguntaria, como eu responderia... Sempre uma preparação para o pior. Mas o pior não  veio. Foi um parto normal, divertido, bem humorado e carinhoso. Um momento de aprendizagem para todo mundo.

E de muita alegria no final: um brinde!
Doutoras Joana Maria Pedro, Carmen Rial, Julia Guivant, Rossana Proença, Livia Barbosa, Sandra Rubia da Silva, Eu, Cláudia Fonseca!


sexta-feira, 16 de março de 2012

É hoje, é hoje!

Chegou o dia da defesa.

Passei a semana tensa. Sonhos com possíveis reações das membras da banca me tiraram da cama cedo todos os dias. Só hoje, que é o dia, eu nem queria sair da cama. Perguntei pro Alf: posso não ir?

Mas tem tudo para ser um sucesso: é um trabalho sobre mulheres, apresentado por uma mulher, para uma banca formada por mulheres. Risco: ser cheia de "mimimis" femininos! hahahah Mas será não.

Ontem busquei duas das professoras no aeroporto e ambas foram muito simpáticas. Espero que continuem assim na hora da banca.

É isso...difícil descrever a sensação. Um pouco de muita expectativa e muita crítica que me acompanha há muito em dias que são especiais para mim: que bobagem ficar desse jeito, ridícula! Mania que tenho de desqualificar o que é importante para mim!

bueno, mas como uma boa analisanda, vou pegar esses sentimentos e destrinchá-los, curtindo cada pedacinho.

sábado, 10 de março de 2012

Defesa da Tese Mamãe vai ao supermercado: uma abordagem etnográfica das compras para o cotidiano

Está chegando o "grande" dia da Defesa da tese. Menos de uma semana e serei doutora! O que isso muda em minha vida? Além do título, não faço a mínima ideia. Mas dizem que muda. Estou curiosa para saber.

Uma coisa é certa: mudo de ocupação. De doutoranda para temporariamente desempregada! hahaha

Isto acontecerá no próximo dia 16 de março, às 14h, na sala 10 do departamento de História da UFSC.

Quem me lê, está convidado!

p.s. estou com saudades de ter o que contar neste blog, de tê-lo interessante. Mas por enquanto, minha energia toda está direcionada para o dia da defesa. Depois, quem sabe...



quinta-feira, 1 de março de 2012

O problema de um blog é

A gente ter a tentação de tornar públicas coisas que que não devem ser tornadas públicas...
Pelo menos, não por escrito e na internet...
Pelo menos, não por enquanto...

Às vésperas da defesa, me vejo em meio a uma crise tão ridícula. Fui vítima da má educação dos outros e tenho que assumir um erro que não cometi...aliás, um erro que não existe!

Ah, que vontade de soltar os cachorros, os monstros, dizer tudo o que penso!! Mas aí, sim, o erro do qual fui acusada vai passar a existir e este não é o momento.






terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Dias de tensão

Tenho vivido dias de muita tensão.

Tensão pelo fim do doutorado: dia 16 de março será a defesa...o que será? Medão.

Tensão pelo que acontecerá depois da defesa. Serei uma PhD, o que significa por hora desempregada. E, estou por hora, desalojada, também. Ainda bem que é só "por hora".

Uma série de mudanças são visíveis no meu horizonte: mudança de cidade, mudança de "estado civil". Quanto medo, quanta incerteza, quantas possibilidades.

Possibilidades que seriam demais se eu tivesse 30 anos. Depois dos 50 a gente fica um pouco mais medrosa, mais calejada, mais consciente de possíveis consequências...

Vamos lá, Maria, coragem para enfrentar o que os próximos dias, meses e anos te reservam!

Mãe, te amo! E como amo! Dediquei a tese a ti. Sei que tu não lês por aqui, resistes ao computador, mas não faz mal, deixar minha declaração de amor e admiração aqui, bem pública, faz bem a mim!

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

É carnaval, de novo - o tempo passa e passa e passa

haha fui digitar o título ali em cima e apareceu o título do carnaval do ano passado...

Ah que saudade do carnaval do ano passado, em Londres, quando eu não pulei, não dancei, bebi vinho e usei casacão, luvas, cachecol e chapéu...

Bom, chapéu eu usei este ano também, só que para proteger do sol e não para esquentar a  cabeça!

O calor está insuportável na ilha da magia e, no meu caso, agravado pelos fogachos do climatério (ou já seria menopausa?). 

Assim, neste momento, além de tudo o que me cerca lembrar a velhice, meu corpo se manifesta para avisar que eu também não sou mais a mesma Beth de carnavais passados. É já necessário pular e beber com moderação, carregar um leque e esperar o calor passar.

Do jeito que eu falo, parece que estou muito velha - e estou? - ai, que difícil idade a assumir esta minha!

Mas vamos nessa pq é carnaval. Pensar no tempo que passa, só depois!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

confusas reflexões sobre a velhice...

Acabei de chegar do Rio de Janeiro que continua lindo e quente!

Minha ida, desta vez, não foi a passeio ou trabalho. Fui dar uma força para o Alf que está lá tomando conta de sua mãe que está doente e de seu pai que está precisando muito do apoio dos filhos neste momento de decisões importantes na vida.

Um dia, quando eu era criança, acreditei que a idade adulta era aquela em que encontrávamos o equilíbrio necessário para levar a vida sem problemas. Do alto de minha sabedoria infantil, pensava que ficar adulta era igual a não ter limites e obrigações. Santa ingenuidade da infância!

Os ciclos da vida são inevitáveis e cada momento vem com limitações contra as quais lutamos e, ao mesmo tempo, às quais nos adaptamos. Observar os pais do Alfredo e a minha própria mãe, todos com mais de 80 anos, me faz pensar sobre tantas coisas. Refletir sobre mim mesma, sobre os significados das coisas, sobre acúmulo, sobre desapego, sobre o significado da expressão super falada "qualidade de vida", sobre as coisas em que acredito e aquelas em que deixo de acreditar.

Percebo a importância da segurança das rotinas domésticas para uma boa "qualidade de vida". Crescemos e vivemos em um mundo que valoriza mais o que está fora do doméstico, que reserva para as rotinas básicas como dormir, alimentar-se e banhar-se um lugar sem o mesmo valor que dá às "grandes" realizações, às 'grandes" conquistas, sejam elas concretas, como o acúmulo de dinheiro, objetos e bens, sejam elas abstratas como prêmios, no sentido de ser "melhor" em alguma coisa. Estas são importantes pois nos mantêm como pessoas ativas na sociedade, já que ela gira em torno destes valores.

No final da vida, porém, o que vale mesmo, o que dá qualidade de vida para as pessoas, é o cotidiano organizado, a comida na mesa, a casa limpa, o banho agradável.

Engraçado, vale aquilo que as mulheres, historicamente, são responsáveis por prover. E quando elas já não podem providenciar o almoço, o jantar, a roupa limpa, a casa organizada, perdem as referências e, finalmente, parecem perder o valor que tinham. Ficam mais chatas do que "já eram" e a vida se desorganiza totalmente.

Alguns recebem a idade melhor do que outros. É o caso do Arturo. Está bem, segue ativo mentalmente, cansado é certo, mas, bastante racional, se impõe sobre os filhos. Nele, ninguém manda. Meu pai foi outro: morreu em Recife, apesar de anos de insistência da família para que ele voltasse para o sul para ser cuidado. Ele não queria ser mandado, queria mandar.

Parece haver uma marcação de gênero, muito evidente, e que rende muita pesquisa das feministas.

Mas falemos do "mandar"...

A tendência a querer "mandar" n@s velh@s só pq el@s já não sabem se expressar direito, pq fazem tudo bem mais devagar, pq insistem em suas manias é grande. Esta tendência é resultado da preocupação, eu sei. Mas talvez se a gente reconhecer que ali tem uma pessoa como a gente, a relação fique mais fácil de ser negociada. Ali tem uma mulher vaidosa, um homem que foi provedor a vida toda, uma mulher que cuidou de uma casa sozinha, que trocou nossas fraldas, que limpou nossas bundas, que nos levou pro colégio e foi a todas as reuniões de pais, que nos levou e buscou em festas e que fez tudo isso pq amava e queria ser amada.

Não é fácil reconhecer que estes nem sempre heróis e heroínas já não podem mais o que podiam.


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Momento de "limbo"

Pois é. A tese está pronta. A banca marcada com as membras confirmadas. Aguardo algumas instruções para imprimir e enviar as cópias para todas elas.

O título da tese é "Mamãe vai ao supermercado: uma abordagem etnográfica das compras para o cotidiano". Lendo assim, parece bobinho. Mas uma coisa tão banal e sem graça como as compras em supermercado renderam, ao todo, 261 páginas. Além de terem ganhado uma graça enorme.

O cotidiano e pessoas em ação e interação nele sempre me encantaram. Aprendo observando-as e observando a mim mesma. Aprendi muito sobre as mulheres de camadas médias da população só de ir com elas ao supermercado.  Agora é pensar em novos desafios de pesquisa, fazer projetos, procurar emprego ou oportunidade.

Por isso, gasto o tempo que me sobrou mandando trabalhos para congressos - sempre tem que manter o lattes ativo -, pensando nas decisões a serem tomadas e nas muitas dúvidas a respeito do futuro. A a grana muito, mas muito, apertada.

O que importa, porém, é que o título de doutora está saindo do forno!


quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Parecer da Co-Orientadora

"serio, tua tese está linda, original, agradável de ler...coerente(!), bem escrita, com excelente trabalho de campo, puxa, tudo o que uma banca quer", via skype.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Mandei a praticamente última versão pras orientadoras...

ai que medo!
Agora é aguardar se haverá novos comentários ou sugestões e partir pra formação da banca...
Juro, to com medo, to insegura, to tudo!

domingo, 15 de janeiro de 2012

A água tá batendo na ...

Pois é, faz tempo que não publico nada neste blog.
A verdade é que não tem muito a publicar.

Estava eu quase achando que tinha quase terminado a tal da tese quando a minha coorientadora se manifestou. Estava lendo a tese e tinha uma série (bem grande!) de observações a fazer. Fui recebendo os arquivos, cheios de balõezinhos com comentários, correções e sugestões, aos poucos, numa espécie de tortura. Conversamos duas vezes longamente por telefone. Depois de cada ligação, meu coração vinha à boca, sentia uma coisa aqui no peito, pura ansiedade. No dia seguinte à primeira ligação, acordei às cinco e meia da manhã, comecei a trabalhar e só parei quando não havia mais neurônio funcionando na minha cabeça, sete horas depois (minha resistência já não é mais a mesma). O amanhecer deste dia foi lindo. Tentei fotografar, mas minha máquina, pra variar, não fez jus ao que eu tava vendo da sacada.

Os comentários, sugestões e correções, confesso, foram suuuuuuper benvindos. Eu realmente precisava deles e ela me ajudou muito dando uma amarrada nas ideias que eu tinha colocado na tese. Serei eternamente grata, mas, po, não podia ser antes? Agora a água tá batendo na bunda, tenho 15 dias pra terminar e uma infinidade de detalhes fundamentais para incluir e transformar e etc.

Meu sumiço, então, tá justificado. Não só não tenho coisas concretas para contar, como também não tenho tempo para blogar.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Ah, tecnologia que facilita a vida! (ironia mode on)

Desde o ano passado estou na casa do Alf. Levei computador, alguns livros e roupas e fiquei por lá, tentando trabalhar. Como comentei, ontem consegui alguma coisa e hoje a manhã rendeu. Mas tive que vir em casa para pagar a faxineira, pegar as contas do mês que devem ser pagas também, buscar outros escritos para a tese e, especialmente, rever o Fredinho...

Enquanto espero o Alf chegar, resolvi tentar pagar as contas pela internet, no site do Banco do Brasil. O netbook, entretanto, não está cadastrado no banco e, por isso, não posso fazer os pagamentos. Decidi ligar para o suporte técnico do BB para entender e tentar resolver o assunto, já que vira e mexe eu preciso fazer pagamentos por este computador aqui.

Não consegui resolver o problema. O procedimento para cadastrar o computador é (1) ir até um terminal de auto-atendimento, (2) cadastrar o celular, (3) receber uma mensagem de sms com uma senha (acho que é isso), (4) voltar para casa e cadastrar o computador.

Ora, até entendo que seja por questão de segurança, mas se a internet e o telefone 0800 existem para que a gente tenha a vida facilitada, não sair de casa para fazer os pagamentos e outras transações bancárias, por que cargas d'água não existe um procedimento de cadastramento do computador direto de casa?

Outro dia a conta de uma amiga foi invadida e limpa no BB virtual...para este tipo de problema eles não têm solução. O negócio, então, é complicar a vida de clientes honestos que só querem pagar suas contas sem sair de casa. Desta forma, o banco quer nos fazer acreditar que está fazendo alguma coisa por nossa segurança!

Vou te contar...fico imaginando minha mãe, velhinha, tendo que lidar com todas essas exigências tecnológicas. Impossível!

E por falar nela...minha mãe adorava fazer palavras cruzadas. Comprava aqueles livrinhos em papel jornal cheios de quadradinhos, pegava seu dicionário e la ia ela, aprendendo novas palavras e exercitando o cérebro. Um dia ela parou. Disse que cansou. Achei uma pena, já que exercitar o cérebro é sempre bom. Aí, quando fui leva-la para Porto Alegre, decidi comprar um desses livrinhos para ocupar o tempo de espera no aeroporto (esqueci de levar um livro para ler).

Finalmente, entendi pq a Amparo parou de fazer palavras cruzadas. O que tem de referência a termos da informática nestes quebra-cabeças não é pouco... "del", "mouse" "shift", "site", e assim vai! Ora, como uma pessoa de mais de oitenta anos, que não aprendeu (nem quis) a mexer com computadores pode responder essas questões?

Minha mãe parou de fazer palavras cruzadas provavelmente desde que as palavras e a linguagem em geral mudaram e a contemporaneidade baseada na informação tomou lugar do mundo analógico que ela conhecia.

Será esta a ordem "natural" da nossa cultura? Seá que não seria bacana oferecer aos velhos oportunidades de continuarem se sentindo inseridos na sociedade? Do jeito que as coisas são, velhos são, em vez de sábios por sua experiência, apenas estorvos, a não ser que se dediquem a ser eternamente jovens, o que é humanamente impossível!

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Este ano tá passando muito depressa!

Sim, já está no final do segundo dia do ano e eu mal vi passar.

Tentei, no dia 31, fazer planos, tomar decisões, planejar 2012. Confesso que não consegui. Enquanto não terminar essa tese, mais nada consigo planejar. Talvez este seja um ano de viver um momento de cada vez, talvez me surpreenda, talvez simplesmente passe como todos os anos, com coisas mais ou menos, coisas muito boas e coisas muito ruins acontecendo, como é, em geral, a vida da gente mesmo.

Todos os anos, neste época, criamos expectativas e tendemos a avaliar o ano que passou com frases como "este ano foi bom", "este ano foi terrível" ou qq outra avaliação possível. Como se ciclos se encerrassem apenas porque mudaram alguns dígitos do calendário criado por nós mesmos. Uma convenção que não me torna diferente do que fui até aqui. Não torna ninguém diferente. O tempo, não exatamente este cronometrado, traz mais experiência, mais angústias e, eventualmente, mais sabedoria se a gente souber prestar atenção às experiências que vive. No ano passado, eu vivi algumas fortes experiências, mas todas tiveram início em anos anteriores e foram se concretizando, independente do calendário (exceto pelo que era com data marcada). A vida é uma sequência de momentos...entre estes, a comemoração da chegada de um novo ano, que parece renovar as energias...

Sei lá, to aqui discorrendo sobre a convenção do calendário e a verdade é que sou totalmente influenciada por ele. Hoje, primeiro dia útil do ano, consegui retomar o trabalho. Ontem, primeiro dia do ano, feriado, não consegui fazer coisa alguma além de ver um filme depois do outro na TV.

Reflexõezinhas que só fazem reconhecer a força da cultura nas nossas vidas.


fui e nem vou revisar este texto antes de publicar...afinal, tudo isso é só para não deixar esse blog parado...este que agora já tem um ano de vida...

Ah! FELIZ ANO NOVO!!!