sexta-feira, 15 de junho de 2012

Rio de Janeiro, te estranho

Estou aqui, com endereço, telefones, internet, mas ainda sem emprego.

Vim parar aqui por conta de meu espírito aventureiro, de uma série de coincidências, conjuntura astral ou seja lá o que for. Mas fácil não está, não.

Foi difícil encontrar apartamento. Vimos vários, todos horríveis, velhos, mal cuidados. Todos caríssimos. Escolhemos um bem localizado, até bem conservado, com vista para o Cristo e uma nesga de vista para o mar. Nossa ficha não foi aceita. O tempo correndo contra nós. Encontramos um outro. No desespero, não vimos os detalhes, só o astral que é bom: arejado, iluminado, com sala ampla. Alugamos. Aluguel igual a soma dos aluguéis de nossos apartamentos em Floripa, fora condomínio e outras taxas. Na chegada, um susto. Mal conservado, cheio de defeitos, um banheiro marrom, o outro cor de rosa, pias entupidas, vazamentos. Pintamos tudo (menos os banheiros e a cozinha, que merecem uma pintura também), trocamos interruptores e tomadas, instalamos plafons e ventilador de teto, colocamos os armários da cozinha abaixo para substituir por uns novos que ainda não estão prontos. Trouxemos a mudança -a primeira etapa, as coisas que estavam na casa dos pais do Alfredo que foi desmontada. Muitas coisas, coisas demais. A maior parte ainda encaixotada, esperando os armários, esperando decisões.

Desespero, medo, pavor: estamos fazendo a coisa certa?

Em Floripa temos apartamentos em bom estado, com cozinhas lindas.Cada um tem o seu. Temos amigos, muitos. Temos o Ribeirão da Ilha, Santo Antônio de Lisboa, a Lagoa da Conceição. Ah, a Lagoa da Conceição. As ruas mais limpas, as casas mais novas. Em Botafogo, as ruas são sujas, as fachadas pretas de fuligem dos carros. Estranho.

Buzinas e sirenes, música da escola de dança em frente, cantoria dos índios no museu do índio que fica na rua, som de carros, o apito do portão da garagem que se abre. Sons que invadem o apartamento pelas janelas e paredes. Movimento de cidade grande. Estranho.

A menos de 1 km, a estação do metrô. Ônibus para todos os lugares passam ali na esquina. Vou ao supermercado, ao banco e ao comércio em geral a pé. Bons restaurantes, cinemas, tudo a poucos passos de casa. Bom, sim. Dependo menos de um carro. Agora moro no fervo. Estranho. Preciso me habituar. Era o que eu queria, eu dizia.

Sinto falta do Campeche, onde morei nos últimos meses. Tédio e marasmo. Silêncio e tranquilidade. Opções.

Não há lugar em que não recebamos um cumprimento. O Rio de Janeiro é, mesmo, uma cidade sociável. Ninguém passa sem dar bom dia, boa tarde, boa noite. Comentários, chistes, simpatias por todos os lados. Pressa e mau atendimento no supermercado, na farmácia e em lojas mais povão. Contradições. Estranho.

Diferenças sociais bem marcadas: por cinquenta por mês, o porteiro lava o carro duas vezes por semana. O fornecedor de esquadrias de alumínio, só pq o contratamos para fazer uma esquadria, me chama de madame. Nas cozinhas do Leblon, no lar onde agora vivem os pais do Alfredo, não há lugar para que as enfermeiras e empregadas sentem para almoçar. Desumano. Estranho.

Saudades do conhecido sul. Um estranho sudeste para desvendar. Excitante, assustador, estranho.

 E tudo é Brasil.