segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Um dia na vida do gato Frederico

Durmo tranquilamente, acomodado sobre as pernas da minha humana. Ela desperta, com calor e, com isso, me desperta também. Não me interessa que horas são. Para a humana, interessa. É hora de levantar. Percebo e pulo da cama, acompanhando-a até a porta do banheiro. Sento ali e espero que ela use a sua caixinha e parta para a cozinha. Vou junto. Lá chegando, pulo para cima da máquina de lavar. Minha humana bebe água e diz: agora, não, Frederico. Permaneço no lugar, olhando para a humana enquanto ela prepara café. A humana percebe meu olhar e cede: está bem. Vou te escovar. Quando estou satisfeito, pulo de volta para o chão e corro para a frente da tigela que está perto da porta da cozinha e grito: venha, humana, coloque aqui meus biscoitos. Ela obedece. Depois segue para a pia. Serve-se de café e vai para o escritório. Sigo com ela. Mas não me agrada nem um pouco que ela fique ali parada, na frente do computador. Chamo novamente. Ela diz: agora não, Frederico. E eu insisto. Ela repete: agora não, Frederico. Insisto mais um pouco e ela cede: Tá bem, vamos jogar bolinha. Seguimos juntos para a sala. Ela chuta a bolinha para lá e para cá e eu defendo a cada chute. Magníficas minhas demonstrações de habilidade e reflexo. Canso. Deito na poltrona. Ela segue para o escritório e começa a fazer sei lá o que. É tão estranho, ela passa os dias ali na frente do computador que eu nem sei bem para que serve.

Às vezes, quando ela não reage ao meu chamado, vou para a mesa do computador, sento sobre seu braço e ela pede para que eu saia dali, que a deixe trabalhar. Mas aqui quem manda sou eu. Então ela vem para a sala brincar. Mas isso não acontece todos os dias. Algumas vezes, para dar tempo a ela, fico na janela observando o movimento de pássaros no céu e de carros na rua. Os pássaros adoram me provocar. Dão rasantes na janela. Sentem-se seguros por causa da redinha. Mas se enganam. Já peguei dois no ar. Foi uma festa!

Em geral, depois do tempo no computador, a humana toma banho, se arruma e sai. Sempre me avisa: Frederico, vou sair, mas mais tarde eu volto. Eu deixo que ela saia, assim se diverte um pouco. Enquanto está fora, deito de novo no sofá e dali só levanto para usar a caixinha, para comer ou para tomar água.

Quando minha humana volta para casa, escuto seu movimento no corredor e vou logo chamando, para que não se demore a entrar. Ela larga suas coisas sobre a mesa e eu corro para ver se tem novidades por lá. Cheiros diferentes e, eventualmente, um sabor novo para experimentar. A humana, depois de passar na cozinha, diz que está cansada e se deita no sofá. Começo a chama-la, mas ela repete: agora não, Frederico. Tento mais algumas vezes e nada. Então, às vezes desisto e me acomodo sobre suas pernas. Ficamos ali até que o humano chegue (mantenho em casa um casal de humanos). Mas quando ele chega, na verdade, não gosto muito. Temos alguns atritos. A humana permanece deitada no sofá. Eu chamo e nada. Nem a humana, nem o humano me atendem. Irritado, subo no aparador e derrubo a pilha de porta-copos que tem ali. Aí sim, a humana se mexe. Credo, de vez em quando tem que ser insistente mesmo para que ela faça o seu trabalho. Jogamos bola, pulamos ou brincamos de pegar. Alguma coisa ela tem que fazer comigo. Até que eu canse e deite novamente.

A humana, à noite, depois de se alimentar, preencher minha tigela com alimento, limpar minha caixinha (atividades para as quais mantenho sempre a humana comigo), decide que é hora de dormir. Sinceramente, como assim? sem me consultar? Então reclamo e a humana começa a jogar bola comigo novamente. Ou a levo até a máquina de lavar para que ela me escove, de novo. Só então, permito que ela vá dormir.

E assim são meus dias, com minha humana trabalhando para mim. E ela ousa dizer que é bom ter um gatinho. Quem tem uma humana sou eu!


domingo, 17 de agosto de 2014

Experiência etnográfica na kombi para Santa Tereza

Sexta-feira. Tinha reunião marcada no centro com Fátima e Flávia para tratarmos da organização do VII Enec. Fátima, gripada, pediu que transferíssemos para sua casa, em Santa Tereza. Topei, claro. Uma oportunidade  de passear pelo Rio e visitar um dos bairros charmosos da cidade. Especial, boêmio, alternativo. Preenche um imaginário de um Rio meio romântico.

Peguei o metrô até a Glória e, de lá, seguindo instruções da Fátima, peguei a kombi que serve de transporte para o pessoal do bairro.
A kombi saiu de linha, então uma foto genérica para ilustrar o que é uma kombi

Logo que cheguei na kombi, perguntei a uma mulher que já estava lá se aquela era a kombi certa. Pela materialidade - cabelos, roupas, expressão do rosto, já se podia perceber que era moradora de Santa Tereza. Confirmada a kombi, sentei-me ao lado dela no banco do meio. Este, aliás, já não era o banco original de uma kombi. Uma enjambração de ferro, madeira e uma fina camada de espuma coberta com um courino (sei lá qual o nome dar) preto. Ficamos esperando a kombi lotar - só sai quando lota.

Em seguida, uma outra mulher, um pouco mais jovem (menos de 30 anos, creio), estrangeira pelo sotaque, mas com a aparência parecida com a primeira, sentou-se ao meu lado. Cumprimentou animada. Depois dela, uma senhora se aproximou do carro e começou a perguntar sobre quem desceria onde. Ela acabara de fazer um procedimento na coluna e, por isso, não queria ter esforço para sair da kombi (realmente, algo bem desconfortável). As duas meio que ignoraram o pedido da senhora. Eu falei que não conhecia bem o caminho e perguntei a altura do endereço para onde ia. Me disse a primeira mulher que era bem no final. Então prontifiquei-me para passar para o banco de trás, para atender à solicitação da senhora.

Ao sair da kombi para trocar de lugar, derrubei a enorme mochila da estrangeira. Fui, gentilmente, recolhe-la. (aqui cabe uma digressão: ela mesma não fez esforço algum em dizer "pode deixar", encostou-se mais na primeira mulher e já começou uma conversa. Lembrei, no ato, do livro do Milan Kundera, A festa da insignificância, em que ele diz que no mundo, hoje, existem dois tipos de pessoas: as que sentem culpa eterna e as que não sentem culpa alguma. As primeiras, são gentis e se desculpam por tudo o que fazem, inclusive quando a culpa não é delas. E, muitas vezes são tidas como trouxas. Olha eu aí gente!)

Bom, juntei a mochila e comentei que estava muito pesada. Imediatamente a estrangeira começou a contar que tinha ido à Tijuca comprar frutas, pois em Santa Tereza falta lugar para comprar frutas, verduras e até pão para comprar.

Esta foi a deixa para começar um novo assunto. A senhora e a primeira mulher comentaram que Santa Tereza agora só tinha restaurantes e hoteis. A senhora, então, falou em tom bem crítico, "e muito estrangeiro!" O que causou certo desconforto entre as pessoas dentro do carro que, imediatamente, foi quebrado pela primeira mulher: "mas eles também precisam de pão e frutas". (reflexões: diferentes posturas, diferentes formas de ver o imigrante, xenofobia?)

Segue a conversa. A mulher pergunta sobre as sacolas plásticas cheias de material de pintura que a estrangeira tinha comprado: "onde você comprou isso já cortado assim?". A estrangeira aproveita a oportunidade para dizer que é artista plástica. (Ahá! Só podia! Estrangeira, morando em Santa Tereza..). A primeira mulher então diz: "Eu também!" (Ahá, de novo!). Trocam ideias sobre técnicas de pintura, com conselhos de ambos os lados.
Neste momento, a estrangeira comenta que Santa Tereza não tem espaços culturais. Ao que a primeira retruca citando todos os museus e casas de cultura do loca. A estrangeira retruca: "Eu não falo de coisas da prefeitura. Não tem coisas da comunidade."

Fiquei quieta, até porque eu estava curtindo etnografar, mas a vontade era de perguntar se lá de onde ela vem esses espaços existem e de implicar: se falta tanta coisa no bairro, na cidade e no país, o que você está fazendo aqui? (nova digressão, ou seriam reflexões abertas pela conversa trivial, cotidiana, em um meio de transporte alternativo: porque estrangeiros procuram as faltas nos lugares? e se procuram ou se ressentem, pq migram? penso em mim mesma, que muitas vezes me sinto estrangeira no Rio de Janeiro e me queixo das faltas. Mas, no caso desta estrangeira, me pareceu que as faltas de que ela se queixava tomavam um tom de superioridade, como se, no Brasil, essas faltas denotassem as fraquezas do país. Bom, pode ter sido só meu orgulho ferido)

A kombi lota e partimos. A conversa entre as duas segue. Elas falam da necessidade de espaços de trabalho de arte em Santa Tereza (oi?), que seria interessante abrir um ateliê para a comunidade. A primeira diz que sempre pensa nisso, mas que falta espaço, a estrangeira fala em alguém com casa com garagem..e segue o papo. Elas trocam telefones e email e ficam de se comunicar para tocar o projeto adiante.

Então, vi nascer um projeto. Que pode ou não ir adiante. A estrangeira, no seu afã de organizar o local à sua imagem e semelhança, a brasileira, com a expectativa de ajuda em um projeto que ela já tinha. Tem-se ideias nesse mundo. Tem-se vontades. Mas quantos vão adiante? E são motivações comunitárias ou são motivações pessoas: um espaço para elas mesmas trabalharem? Sei lá.

Fotinho de Santa Tereza só para ilustrar a estreiteza das ruas.

Enquanto a conversa rolava, a kombi subia por ruas estreitas e íngremes, com curvas fechadas que davam a sensação de que não seria possível passar, especialmente quando carros vinham descendo. Em uma dessas subidinhas, havia um carro de polícia parado e dois policiais armados abordavam um motoqueiro. Dentro da kombi o pessoal comenta: "o que está acontecendo?" Essas coisas acontecem o tempo todo." "Alguém grita aí que ele é conhecido". "Não, vai que não é, melhor não se meter". "Parece o entregador do (um negócio local qq cujo nome não lembro)". Passamos e o pessoal vai virando o rosto em direção ao motoqueiro e aos policiais e aquela que falou qeu parecia o entregador, conclui que não era. A kombi segue, o assunto "morre"...

Penso no esforço, talvez hercúleo, dos moradores do bairro para mantê-lo com esse ar de cidade pequena em que todos se conhecem, em que não há criminosos (apesar das enormes favelas dominadas pelo tráfico que o circundam). Remete à queixa da senhora pela presença dos estrangeiros e à preocupação da estrangeira em ter coisas DA comunidade... Que desejo é este? De onde ele vem?

E assim, as cidade e bairros vão crescendo, entre progressos e resistências, entre o desejo do novo e um esforço de salvar uma possível tradição, entre o anonimato e a sensação de viver em comunidade.

Confesso: foi super legal o passeio e todas as possibilidades de reflexão que esta meia hora circulando entre a Glória e Santa Tereza me ofereceram.

domingo, 3 de agosto de 2014

Protocolo no Municipal

Hoje fui pela segunda vez assistir um espetáculo de dança no Theatro Municipal. O teatro é lindo, pomposo, imponente. O espetáculo desta vez foi de dança atlética. Um grupo italiano, chamado Katakló, formado por ginastas, esmerou-se no palco e proporcionou momentos agradáveis de fruição aos expectadores. Corpos fortes, flexíveis, em total sintonia. Bonito, mas nada empolgantíssimo, na minha opinião.

Depois do espetáculo fui ao banheiro das senhoras. Quando cheguei ainda estava vazio. Só uma senhora esperando a sua vez. Assim que entrei, ela me olhou e disse: lindo espetáculo. Eu estava mais preocupada com o frio que sentia - o ar condicionado no teatro estava congelante. Surpreendi-me com o comentário. Eu não a conhecia e estava mais a fim de falar do frio. Em seguida, o recinto começa a ficar lotado de mulheres vestidas com esmero, em suas melhores roupas brilhosas, sandálias e sapatos dourados. Cada uma que entrava tecia comentários sobre o espetáculo: "maravilhoso", "fantástico", "nunca assisti algo assim", "e a música...". Os mesmos comentário que ouvi no banheiro na outra vez que fui.

Percebi, então, parte do protocolo do Municipal: vestir-se com brilhos, maquiar-se, perfumar-se e elogiar o espetáculo no banheiro das mulheres para mulheres que nunca se viu antes.