quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

o cotidiano

Puxando pela memória, parece-me, todo filme ou livro quando quer retratar o cotidiano descreve um sujeito que faz tudo sempre igual, como naquela música do Chico Buarque: "todo dia ela faz tudo sempre igual, me acorda às seis horas da manhã, me sorri um sorriso pontual e me beija com a boca de hortelã". Um pouco como se cotidianidade fosse sinônimo de tédio, de falta de algo especial para apimentar a vida.

Acabamos por crer que a regra é que todos os dias passem da mesma forma, nos mesmos horários e lugares. Aceitamos uma ideologia geral, bastante divulgada pela propaganda, de que feliz é quem tem um cotidiano diversificado. Isto faz com que, salvo nos dias em que acontecem coisas muito marcantes, não prestemos atenção às variações de nossos roteiros diários, dos acontecimentos e sentimentos por que passamos, os altos e baixos, as pessoas diferentes que encontramos, a forma diferente com que fazemos as coisas.

Vivido de forma pouco consciente, o cotidiano parece mecânico. Mas não é! Há sempre surpresas, novidades nos caminhos, exigências de criatividade e jogo de cintura nas mais simples soluções que buscamos para pequenos problemas. De vez em quando, é bom prestarmos atenção nele. Afinal,
"a vida cotidiana é a vida do homem inteiro; ou seja, o homem participa na vida cotidiana com todos os aspectos de sua individualidade, de sua personalidade. Nela, colocam-se em funcionamento todos os seus sentidos, todas as suas capacidades intelectuais, suas habilidades manipulativas, seus sentimentos, paixões, ideias, ideologias". (Agnes Heller)
 

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