domingo, 17 de agosto de 2014

Experiência etnográfica na kombi para Santa Tereza

Sexta-feira. Tinha reunião marcada no centro com Fátima e Flávia para tratarmos da organização do VII Enec. Fátima, gripada, pediu que transferíssemos para sua casa, em Santa Tereza. Topei, claro. Uma oportunidade  de passear pelo Rio e visitar um dos bairros charmosos da cidade. Especial, boêmio, alternativo. Preenche um imaginário de um Rio meio romântico.

Peguei o metrô até a Glória e, de lá, seguindo instruções da Fátima, peguei a kombi que serve de transporte para o pessoal do bairro.
A kombi saiu de linha, então uma foto genérica para ilustrar o que é uma kombi

Logo que cheguei na kombi, perguntei a uma mulher que já estava lá se aquela era a kombi certa. Pela materialidade - cabelos, roupas, expressão do rosto, já se podia perceber que era moradora de Santa Tereza. Confirmada a kombi, sentei-me ao lado dela no banco do meio. Este, aliás, já não era o banco original de uma kombi. Uma enjambração de ferro, madeira e uma fina camada de espuma coberta com um courino (sei lá qual o nome dar) preto. Ficamos esperando a kombi lotar - só sai quando lota.

Em seguida, uma outra mulher, um pouco mais jovem (menos de 30 anos, creio), estrangeira pelo sotaque, mas com a aparência parecida com a primeira, sentou-se ao meu lado. Cumprimentou animada. Depois dela, uma senhora se aproximou do carro e começou a perguntar sobre quem desceria onde. Ela acabara de fazer um procedimento na coluna e, por isso, não queria ter esforço para sair da kombi (realmente, algo bem desconfortável). As duas meio que ignoraram o pedido da senhora. Eu falei que não conhecia bem o caminho e perguntei a altura do endereço para onde ia. Me disse a primeira mulher que era bem no final. Então prontifiquei-me para passar para o banco de trás, para atender à solicitação da senhora.

Ao sair da kombi para trocar de lugar, derrubei a enorme mochila da estrangeira. Fui, gentilmente, recolhe-la. (aqui cabe uma digressão: ela mesma não fez esforço algum em dizer "pode deixar", encostou-se mais na primeira mulher e já começou uma conversa. Lembrei, no ato, do livro do Milan Kundera, A festa da insignificância, em que ele diz que no mundo, hoje, existem dois tipos de pessoas: as que sentem culpa eterna e as que não sentem culpa alguma. As primeiras, são gentis e se desculpam por tudo o que fazem, inclusive quando a culpa não é delas. E, muitas vezes são tidas como trouxas. Olha eu aí gente!)

Bom, juntei a mochila e comentei que estava muito pesada. Imediatamente a estrangeira começou a contar que tinha ido à Tijuca comprar frutas, pois em Santa Tereza falta lugar para comprar frutas, verduras e até pão para comprar.

Esta foi a deixa para começar um novo assunto. A senhora e a primeira mulher comentaram que Santa Tereza agora só tinha restaurantes e hoteis. A senhora, então, falou em tom bem crítico, "e muito estrangeiro!" O que causou certo desconforto entre as pessoas dentro do carro que, imediatamente, foi quebrado pela primeira mulher: "mas eles também precisam de pão e frutas". (reflexões: diferentes posturas, diferentes formas de ver o imigrante, xenofobia?)

Segue a conversa. A mulher pergunta sobre as sacolas plásticas cheias de material de pintura que a estrangeira tinha comprado: "onde você comprou isso já cortado assim?". A estrangeira aproveita a oportunidade para dizer que é artista plástica. (Ahá! Só podia! Estrangeira, morando em Santa Tereza..). A primeira mulher então diz: "Eu também!" (Ahá, de novo!). Trocam ideias sobre técnicas de pintura, com conselhos de ambos os lados.
Neste momento, a estrangeira comenta que Santa Tereza não tem espaços culturais. Ao que a primeira retruca citando todos os museus e casas de cultura do loca. A estrangeira retruca: "Eu não falo de coisas da prefeitura. Não tem coisas da comunidade."

Fiquei quieta, até porque eu estava curtindo etnografar, mas a vontade era de perguntar se lá de onde ela vem esses espaços existem e de implicar: se falta tanta coisa no bairro, na cidade e no país, o que você está fazendo aqui? (nova digressão, ou seriam reflexões abertas pela conversa trivial, cotidiana, em um meio de transporte alternativo: porque estrangeiros procuram as faltas nos lugares? e se procuram ou se ressentem, pq migram? penso em mim mesma, que muitas vezes me sinto estrangeira no Rio de Janeiro e me queixo das faltas. Mas, no caso desta estrangeira, me pareceu que as faltas de que ela se queixava tomavam um tom de superioridade, como se, no Brasil, essas faltas denotassem as fraquezas do país. Bom, pode ter sido só meu orgulho ferido)

A kombi lota e partimos. A conversa entre as duas segue. Elas falam da necessidade de espaços de trabalho de arte em Santa Tereza (oi?), que seria interessante abrir um ateliê para a comunidade. A primeira diz que sempre pensa nisso, mas que falta espaço, a estrangeira fala em alguém com casa com garagem..e segue o papo. Elas trocam telefones e email e ficam de se comunicar para tocar o projeto adiante.

Então, vi nascer um projeto. Que pode ou não ir adiante. A estrangeira, no seu afã de organizar o local à sua imagem e semelhança, a brasileira, com a expectativa de ajuda em um projeto que ela já tinha. Tem-se ideias nesse mundo. Tem-se vontades. Mas quantos vão adiante? E são motivações comunitárias ou são motivações pessoas: um espaço para elas mesmas trabalharem? Sei lá.

Fotinho de Santa Tereza só para ilustrar a estreiteza das ruas.

Enquanto a conversa rolava, a kombi subia por ruas estreitas e íngremes, com curvas fechadas que davam a sensação de que não seria possível passar, especialmente quando carros vinham descendo. Em uma dessas subidinhas, havia um carro de polícia parado e dois policiais armados abordavam um motoqueiro. Dentro da kombi o pessoal comenta: "o que está acontecendo?" Essas coisas acontecem o tempo todo." "Alguém grita aí que ele é conhecido". "Não, vai que não é, melhor não se meter". "Parece o entregador do (um negócio local qq cujo nome não lembro)". Passamos e o pessoal vai virando o rosto em direção ao motoqueiro e aos policiais e aquela que falou qeu parecia o entregador, conclui que não era. A kombi segue, o assunto "morre"...

Penso no esforço, talvez hercúleo, dos moradores do bairro para mantê-lo com esse ar de cidade pequena em que todos se conhecem, em que não há criminosos (apesar das enormes favelas dominadas pelo tráfico que o circundam). Remete à queixa da senhora pela presença dos estrangeiros e à preocupação da estrangeira em ter coisas DA comunidade... Que desejo é este? De onde ele vem?

E assim, as cidade e bairros vão crescendo, entre progressos e resistências, entre o desejo do novo e um esforço de salvar uma possível tradição, entre o anonimato e a sensação de viver em comunidade.

Confesso: foi super legal o passeio e todas as possibilidades de reflexão que esta meia hora circulando entre a Glória e Santa Tereza me ofereceram.

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