quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Tecnologias, velhice, exclusão: o conhecimento analógico voltará a ter valor

 Meu carro é velho, o rádio que tem é do tempo que a gente tirava a frente pra não ser roubado. Obviamente, não tem computador de bordo.Tem 13 anos.

Meu computador é velho, nem sei o que os novos são mais capazes de fazer do que este aqui. Mas ele é velho, com certeza! Tem 8 anos.

Meu celular é velho. É smartphone, mas não tem espaço pra mais apps - nem eu quero - e não é 5G. A câmera, então, nem se fala. Tira fotos bem mais ou menos. Tem 5 anos.

Vou em restaurantes que não têm cardápio em papel, embora ainda tenham garçons. Vou em cafeterias e restaurantes fast food que, mesmo que haja pessoas para preparem o pedido, elas não me dirigem a palavra e ficam esperando que eu faça o pedido pela tela touchscreen (ainda chamam assim?).

No supermercado, para ter desconto, tenho que ativar no aplicativo. Resolvi usar. Baixei o aplicativo em casa, mas não parei para ver como funcionava. Dentro da loja, sem entender bem como era, pensei: vou pegar o produto e a pessoa do caixa me ajuda. Chegando lá, não tinha sinal. Perguntei: tá, mas como funciona o aplicativo, então? Ele não soube ou não quis explicar. Fiquei com raiva e falei que era melhor no tempo em que havia um cartaz na prateleira com leve 3 e pague 2 e que o desconto era para todo mundo. *

Se eu critico toda a tecnologia intermediando relações humanas, os jovens me olham como se eu fosse uma velha "apegada às tradições" - frase a mim dirigida por uma jovem vizinha no grupo de whatsapp do condomínio. A mesma que, ao chegar no condomínio, recebeu uma cópia do regimento em papel e não leu e depois deu um piti porque queria uma cópia digitalizada pra poder ler.**

Pois é, às vezes me parece que foi num estalar de dedos, no tempo de uma pandemia, que o mundo, tal qual eu conhecia, acabou, que fiquei velha. Sinto-me sendo expulsa de um mundo que, infelizmente, minha geração criou. Sim, porque o Steve Jobs (que Deus o tenha, como dizem os velhos) e o Bill Gates, por exemplo, são da minha geração. E eu só consigo pensar: que merda que eles fizeram!

Tá, tem tecnologias que vêm para o bem. Que facilitam a vida. Não fossem todas essas facilidades de comunicação, a minha passagem pela pandemia teria sido bem solitária e eu não acompanharia, mesmo sem tocar, o crescimento dos meus netos. E, sim, eu sei usar e sou capaz de aprender mais. Não tenho medo de computador ou celular. Fui uma adotante precoce das tecnologias.

Mas, gente, tem que endeusar tanto essa merda que substitui o que há de humano em nós, que rouba os empregos dos jovens, que aumenta o abismo entre as classes, que exclui a maioria, que faz uma pessoa com quarenta anos se sentir ultrapassada e ficar desempregada? 

Vejo os efeitos da tecnologia nas pessoas e na cidade e penso: esse mundo não é mais o meu. Não pertenço. Mas aí penso que a emergência climática está aí e que quem não aprender a viver no mundo analógico, não vai sobreviver. 

Será só o desejo de vingança que move este meu pensamento? 

A população está envelhecendo, dizem os dados do IBGE, e o idadismo nunca foi tão presente. Estamos velhos a partir dos 40 - e que dirá dos 60? -  e os empregos, poucos, são para jovens. A medicina nos garante longevidade, mas a sociedade do jeito que está exclui a maioria.

Agora, tenta explicar isso tudo pra alguém com vinte anos.


* E, gente, se a tecnologia é para poupar tempo, o aplicativo do supermercado é o oposto, pois a ideia é que em casa a gente olhe todas as ofertas, ative no aplicativo e aí sim vá para a loja buscar os produtos. Ora, continua sendo mais fácil um cartaz na prateleira! 

** Sobre o piti da cópia digitalizada, me fez pensar: jovens não sabem ler em papel?

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