Este ano, arrumar mala tem sido minha atividade mais frequente. Deveria ter-se tornado uma atividade banal e fácil, mas comigo não é assim. Tem algo estranho em selecionar entre roupas e coisas o que deve ser levado e o que deve ser deixado.
Para mim, sempre faz pensar que, no fundo no fundo, a gente não precisa ter tanta coisa para viver e que é possível viver em uma mala. Por outro lado, sempre bate uma insegurança, não sei se é bem esse o termo, mas é uma sensação de abandono do que se construiu e acumulou e de que alguma coisa vai faltar e, talvez, mudar durante a viagem.
Tenho ainda a sensação de que, para viajar, é preciso levar as roupas mais especiais, "arrumadas", que se tem e, daí, vem a consciência de que meu guarda-roupa não é muito variado e que nele não há roupas especiais e "arrumadas".
Por que, no dia a dia, não me incomoda não andar muito bem vestida, usar sempre as mesmas roupas (ando pouquíssimo criativa) e quando vou viajar fico com a sensação de que não tenho o que levar?
Arrumar a mala é planejar os próximos dias, prever, imaginar, criar expectativas. Arrumar mala é deixar um monte de coisas para trás.
Viajar é um estado de excessão, é estar fora do cotidiano, do esperado, do normal. É estar longe dos recursos e das rotinas que nos dão tranquilidade. É abandonar o conhecido, mudando de lugar no mundo. Eu gosto, eu desejo, mas me tira do prumo e do controle tão necessários neste momento.
Não houvesse o que fica aqui, esperando, seria bem mais fácil.
Mesmo assim, lá vou eu! Afinal, seja com uma mala pouco criativa e variada, seja com coisas deixadas para trás que talvez possam ser úteis ou que talvez eu descubra, de novo, a sua inutilidade, como resistir a quatro dias em Buenos Aires?
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