Estou a escrever, ou tentar descrever, como os supermercados entraram nas nossas vidas...aí lembrei de alguns fatos da infância e me deu vontade de contar aqui. É um pedacinho do texto da tese, que acabei de escrever...
Em um curto espaço de tempo, de acordo com Humphery (1998), isto é, menos de um século, os supermercados tornaram-se uma instituição social e econômica das nações industrializadas. O autor destaca que não há muito tempo, esse tipo de varejo representava um novo mundo e que, hoje em dia, para a maioria das pessoas no mundo industrializado, eles são lugares familiares.
Comecei, a partir disso, a pensar sobre as minhas primeiras relações com os supermercados, na infância, nem tão tenra...
Lembro, por exemplo, da instalação de um grande loja de supermercado no bairro onde morava, em Porto Alegre, quando pré-adolescente, o Kastelão (pq usavam K, não sei). Minhas colegas de escola e eu saíamos da aula para passear naquele mundo totalmente novo, repleto de embalagens atraentes, em que empurrar um carrinho de compras através de corredores que ofereciam produtos variados nos fazia sentir como se estivéssemos vivendo as aventuras apresentadas nas séries de televisão americanas que costumávamos assistir.
Aos poucos, depois da instalação desta loja, na década de 1970, de acordo com minha memória, foram desaparecendo do bairro o armazém em que minha mãe costumava fazer as compras do dia-a-dia, o açougue, a fruteira e a padaria. Transformações no trânsito e nas relações podiam ser observadas.
Em situações de emergência, ou seja, a falta de algum produto para o preparo do almoço ou de um doce, minha mãe costumava pedir a algum dos filhos que “desse um pulo” no armazém para buscar o produto que faltava. Íamos sem dinheiro e o dono do estabelecimento nos entregava o produto, anotando o valor na caderneta para que, no final do mês, as contas fossem acertadas. Ele sabia de quem éramos filhos, sabia quem era quem na vizinhança.
Com o surgimento do supermercado, minha mãe, pouco afeita ainda à modernização do comércio de alimentos, ficava indignada quando, no caixa, a atendente pedia seu documento de identidade para confirmar que o cheque era dela mesma: “como assim, você não sabe com quem está falando?” esbravejava enquanto, impotente, tirava a identificação de sua carteira.
Hoje já nos acostumamos a essa relação de anonimato, baseada na total falta de confiança entre as partes.
Nenhum comentário:
Postar um comentário