Pois é, uma das etapas que faltava na preparação da viagem era a cirurgia para extrair a vesícula e, desta forma, evitar que lá onde estarei as pedras se mexessem e causassem um mal maior.Eu estava com medo. A última e única cirurgia que tinha feito foi aos 10 anos, quando extraí as amigdalas. Naquela época, achei o máximo ser operada. As atenções de todos se voltaram para mim, eu podia tomar sorvete e comer gelatina à vontade, que festa que foi. Mas, claro, eu era criança e não tinha a mínima noção de riscos.
A cirurgia que fiz ontem, dizem, é simples e de fácil recuperação, mas envolve riscos, como todo o procedimento invasivo no corpo da gente. Antes de partir para o hospital, fiz conjecturas das mais variadas, procurei me concentrar na viagem, ler sobre o lugar para onde vou, estudar os caminhos de metrô até em casa, de casa até a universidade etc. Tudo para tentar evitar os maus pensamentos relacionados à cirurgia e seus riscos.
A "agonia pré-operatória" me fez pensar em Beck e sua "sociedade do risco" e em Giddens e suas reflexões sobre confiança e reflexibilidade. Realmente não nos resta outra alternativa a não ser confiar nos sistemas abstratos e no conhecimento dos especialistas, peritos, neste mundo contemporâneo.Antes da cirurgia, cheguei a pensar no absurdo que é tirar uma parte do corpo para evitar que esta mesma parte dê problemas mais adiante. Isto é, corre-se o risco da cirurgia para evitar o risco de possíveis infecções, pancreatite ou entupimento, que ninguém sabe se vai acontecer realmente.
Quase desisti, inspirada pelas reflexões de Beck.
Por outro lado, manter a vesícula no lugar significava abrir mão de várias delícias alimentares: sorvetes, churrascos, mousses de chocolate e maracujá, a sobremesa de café, a comida salgada com creme de leite, o pão com manteiga, o cheese cake...humm praticamente abrir mão de tudo o que é bom de comer, pois tudo leva gordura. E, como tudo na vida é opção, optei pelos prazeres da mesa e parti para o hospital, medrada e esperançosa ao mesmo tempo.
A anestesia não deu barato, como minha amiga Jania prometeu! :)
É impressionante a agilidade da equipe de médic@s e enfermeir@s para preparar o paciente na sala de cirurgia. Dormi com aquele arzinho direto sobre o nariz e a boca, acordei sem vesícula, cheia de curativos, numa sala cheia de macas com outros pacientes como eu. Foi impossível não pensar naquela situação como a de uma indústria em que os pedaços que nos foram tirados e nós mesm@s ali deitad@s somos produto final da linha de produção.
Antes de sair do centro cirúrgico, uma enfermeira me entregou um frasquinho com as pedras da vesícula, conforme ordem do médico que queria provar que as tirou de mim. Eram duas pedras, uma grande e uma pequena. Aliás, maiores do que eu imaginava. Fiquei com o frasquinho na mão a pensar no que faria com aquilo. Decidi entregar pra enfermeira para que ela colocasse no lixo hospitalar. Alfredo, depois, até reclamou pois queria te-las visto. Coisinhas pretas ou ensanguentadas (não consegui decifrar) dentro de um frasco plástico com uma etiqueta com meu nome.
As pedras na vesícula formam-se, conforme ouvi dos médicos, como as pérolas na ostra. Até parece chique, né? Mas a grande diferença é que elas não tem valor de uso ou valor de troca. São, ao contrário das pérolas, completamente indesejadas.
Bom, dá pra pensar sobre isso: são indesejadas porque produtos humanos e, como tal, nos dão consciência de sermos finitos. Que viagem. Me fez lembrar Sahlins e seu raciocínio sobre o consumo de carne: quanto mais próximo o animal for do convívio humano, mais relutante somos de consumi-lo. Quanto mais similar forem os nomes das partes do animal às partes do corpo humano, menos valor damos a essas partes ou mais relutantes ficamos em consumi-las pois remetem às nossas próprias partes (o coração do boi, por exemplo, é mais raro, único em cada boi, do que a picanha ou o coxão, mesmo assim, seu preço é mais baixo pq faz lembrar que também temos um coração).
Pensando bem, é melhor que as pedras da vesícula não se tornem mercadorias valiosas, já pensaram quanta vesícula roubada teríamos? Tá certo que dizem também que a vesícula é inútil como o apêndice. Mas se é inútil por que nascemos com ela?
Realmente, teus posts são muito longos Maria!
ResponderExcluirMas sabe qual a parte boa, escrevo tudo o que eu gostaria de falar pras pessoas e poucas prestam atenção. Assim, estou falando com o computador, com um@ leitor@ imaginad@ que me parece interessadíssim@ nas minhas histórias.
Beth, reflexões, bom pra quem está de molho! Legal, gostei das relações com os autores que conheço, os outros tb achei legal, mas não posso pensar além do que vc escreveu. Mas tem uma coisa de que discordo , que a opção de tirar a vesícula tem a ver com poder continuar comendo de tudo, esse é o marketing da medicina majorítária, a que te operou - aqui a pauta não é tirar ou não tirar um pedaço do corpo, mas sobre continuar comendo de tudo. Uma das grandes contribuições para a sobrecarga da vesícula é um desequilíbrio em que a alimentação é grande personagem, assim, a mim parece que a alimentação é parte da consciência de si. Não é sermão, não é direto pra vc, mas é como eu penso, estou num lugar diferente dessa medicina e eu mesma sou meu campo de experimentação, cuido do alimento, entre outras coisas.
ResponderExcluirMuito bom.. resolveu criar um blog.. adorei.. o layout ta muito legal tbm.. to pra criar um novo.. de um novo projeto..nada a ver com bbb.. rs
ResponderExcluire no final a tal da viagem saiu? é aquela? ou é outra substituindo aquela? rss.
bjks
Ana, por incrível que pareça, minha alimentação sempre foi bem equilibrada, nunca me atirei de cabeça nas carnes gordas ou nos excessos de qq tipo (às vezes um excesso de álcool, hahah). Mesmo assim, a vesícula fez pedras (segundo informações tb médicas, quem tem colesterol baixo tende a ter pedras na vesícula). Se ficasse com a vesícula do jeito que estava, minha alimentação seria cada vez mais restrita e havia o risco de, mesmo restringindo a alimentação, uma pedrinha sair do lugar e causar um problemão.
ResponderExcluirClaro que fui pela medicina hegemônica, mas consultei uns seis médicos diferentes antes de decidir, entre clínicos gerais, pediatras, geriatras e gastroenterologistas.
Tb acho que a questão gira em torno da consciência de si, mas não podemos descartar o que acontece no corpo a nossa revelia e apesar dos cuidados.
É claro também que ao consultarmos médicos e fazermos os exames que eles pedem, estamos nos "mancomunando" com a indústria do diagnóstico. O diagnóstico de pedra na vesícula, para mim, veio em 2008, mas foi em 2010 que ela começou a marcar presença cada vez que comia um pouco de azeite de oliva, um simples pão com manteiga ou um feijão um pouco mais temperado. A vida pode ficar bem complicada pra quem tem restrições alimentares...
Morg
ResponderExcluira viagem é outra...mas vou contar mais detalhes quando tiver chegado ao destino! :)
Melhoras! Pensa no sorvete, churrasco e pão com manteiga pro resto da vida...
ResponderExcluirOk, vamos nos ater ao texto, vc disse "Por outro lado, ... delícias alimentares...humm praticamente abrir mão de tudo o que é bom de comer, pois tudo leva gordura." Assim, li o que estava escrito, mas isso pouco importa, tinha mesmo de tirá-la e claro que muitas coisas estão além do raciocínio causa-efeito da medicina. Mas o texto é muito legal.
ResponderExcluirHoje já deve estar melhor e menos nesta máquina infernal!
é verdade, Ana..eu falei em delícias alimentares e o texto leva a crer que foi só por isso que eu fiz a cirurgia. Mas foi apenas uma tentativa de fazer engraçadinho o texto...
ResponderExcluirE essa máquina infernal exerce um louco facínio sobre nós. Não consigo ficar afastada por muito tempo.
texto é texto, não precisa ser fiel à realidade!
ResponderExcluirOlá queridona!
ResponderExcluirVoltei à vida virtual. Fiquei contente com esse seu espaço. Virei sempre te visitar.
Abraços e se cuide!