Passei a semana, entre outras atividades, arrumando a casa para a viagem que está marcada para o dia primeiro de fevereiro e que ocupará os próximos cinco meses da minha vida.Arrumar a casa para a viagem é guardar roupas, sapatos e livros em algum lugar que não incomode a próxima moradora, mas também não caracterize um fim da minha relação com este apartamento. ele continua sendo a embalagem principal do meu quotidiano. Mas é preciso deixa-lo habitável para a Marina. Avaliar as roupas que vou levar e as que vou guardar para decidir depois se continuarei usando ou não.
Porém, mais fixos no espaço do apartamento que as roupas, estão os livros. Estão lá quietos. Depois de lidos e bastante usados, ou não, para dar uma de Caetano, vão para uma prateleira, acumulam pó e guardam histórias. Estas prateleiras precisam ser esvaziadas agora, para dar espaço para as leituras, afetos e histórias da nova moradora temporária do apartamento. É preciso olhar um por um, separar os que pertencem a mim, dos que pertencem à Betina, tirar o pó e, principalmente, decidir onde coloca-los.
Livros são objetos que têm valor só por serem o que são: livros. Há em nossa cultura um senso comum de que eles são objetos de valor e, mesmo se as pessoas não lêem, sentem que devem possuir livros. Um vendedor de livros usados me contou que uma madame chegou em sua loja procurando livro a metro. Ela estava redecorando sua casa e precisava preencher a estante. Queria livros de uma cor determinada, uma altura específica e na metragem suficiente para ocupar a prateleira. Engraçado, não? Existem, também, aquelas pessoas que, ao chegarem na sua casa, vão até a estante - se esta estiver visível - e começam a ler os títulos ali guardados, na expectativa de conhecer um pouco mais da anfitriã. Talvez seja possível levantar incontáveis formas de se relacionar com os livros.
Livros são objetos que falam. Sua voz é mais abrangente do que a história que contam ou a teoria que defendem. Eles falam do leitor e falam daquele que os guarda em casa, numa estante.
Quanto conteúdo pode ter um simples livro, né hein? Quanto conteúdo podem ter o proprietários dos títulos na estante, né hein? No mínimo, a preocupação em parecer "letrado". Quantos usos há para os livros, sejam raros, pocket, dicionários antigos, best sellers ou eruditos. Objetificação dialética, diria Daniel Miller.
mais arrumações, mas fiquei contente de saber que tem uma inquilina, a Marina.
ResponderExcluirPra onde vc vai? França? Bélgica? Passarei em Floripa em fereveiro, mas já estarás em outros ares :) E o pior é carregar dezenas de livros pra lá e pra cá nas malas... vais ver!
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