sábado, 30 de abril de 2011

Eu entre um milhão

Atendendo a pedidos das minhas amigas Marta e Dina, e de meu primo Lavard, fui ao casamento real em busca de manifestantes indignados com a gastança. Saí de casa cantando: não me convidaram, pra essa festa pobre (viva, Cazuza!)...mesmo assim, fui.

Acordamos às seis da manhã e às sete e pouco já estávamos em frente ao Palácio de Buckinghan,entre a cerca de segurança e uma superestrutura montada para a imprensa, em um espaço mais ou menos bom para ver, de longe, o entra e sai de carros, cavalos, guardas, convidados, príncipe, rainha e noiva. Assim que encontramos o espaço, não desgrudamos mais de lá. Nem para o banheiro, nem para comprar uma água. Cinco horas na seca total.
Fila do banheiro, 7h da manhã
No caminho entre a estação Green Park e o Palácio, conversamos com duas adolescentes vestidas de noiva, com um cartazinho colado nas costas que dizia "it should have been me". Elas chegaram lá ao meio dia da quinta-feira, dormiram em frente ao Palácio, passaram muito frio, mas estavam se divertindo com os amigos que fizeram no local.

Em torno de nosso posto de observação, muito movimento de gente de todas as idades. Algumas enfeitadas, outras fantasiadas, parecia carnaval. Enquanto isso, duas meninas dormiam tranquilamente na grama.
Mãe e filha na maior elegância
Um grupo de Filipinos
Fizemos amizade com Aaron, um inglês, londrino, de 26 anos e Lynn, uma americana, do Oregon, de 64. Aaron chamava Lynn de "mummy". A intimidade entre os dois era tanta que cheguei a acreditar que eram parentes. Descobri, depois, que tinham se conhecido ali mesmo e, por solidariedade, dividiram alimentos, agasalhos e planos de chegar o mais perto possível do espetáculo.
Lynn e Aaron, nossos vizinhos e amigos instantâneos
Pedimos as opiniões deles sobre o casamento. Para Aaron, que diz ter crescido junto com William, o casamento era um pouco exagerado (over the top), mesmo assim, bom de ver por ser parte da história da Inglaterra. Ele tem orgulho de William por ser filho de Diana, uma princesa do povo, e por estar se casando com Kate, que também é do povo.  Já Lynn diz que foi à disneylândia, mas que são incomparáveis os espetáculos, pois esse casamento era da vida real.

Lynn e Aaron nos ajudaram muito, cuidando de nosso espacinho quando precisávamos mexer as pernas. Solidariedade e sociabilidade eram perceptíveis entre todas as pessoas que estavam ali. Um casal com uma minitv permitia que todo mundo espiasse a transmissão do casamento. Vi uma mulher fazer amizade com um casal que estava com dois filhos pequenos e ajuda-los a tomarem conta das crianças. As pessoas conversavam umas com as outras. Muito legal o clima.
Tinha que grudar, mesmo, pra não perder o lugar
Alf entrevistando o Guarda
O que essas bandeiras estão fazendo ali? 
Cronologicamente, o evento aconteceu assim:

- Convidados saem do palácio e microonibus
- Bandas saem do palácio tocando
- Mais carros saem do palácio 
- Saída do príncipe (não tenho certeza)
- Passagem da cavalaria
- Mais cavalaria
- Sobe a bandeira que avisa que a rainha vai sair do palácio
- Sai a rainha - multidão delira! Grita, abana bandeirinhas!
- Passa o carro com a noiva - uma fotógrafa que estava perto de nós conseguiu fotografa-la e perguntou pra multidão "vocês querem ver a Kate?" As pessoas se reuniram em torno da máquina da orgulhosa fotógrafa. 
- Começa a cerimônia, transmitida por alto-falante, onde a gente estava, e por telões no Hyde Park, no Saint James Park e em Trafalgar Square.
- Sentamos e esperamos o fim da cerimônia e a volta nas carruagens...
- Voltam as carruagens, os cavalos, as bandas, os microonibus com convidados (vi de longe)
- Sentamos e esperamos o beijo no terraço do Palácio...Enquanto isso, carrinhos limpam a rua em frente. Uma guerra disfarçada entre fotógrafos, cinegrafistas e público começa. Motivo: melhor lugar para ver o beijo.
- A multidão recebe a permissão para avançar para a frente do palácio. Esse momento é (in)tenso, mas sem tumulto. A polícia domina a situação. É impressionante! Fomos parar lá no meio, de cara para a cena.
- Os noivos aparecem, em seguida a rainha, Charles e Camila, os pais da noiva e as criancinhas que acompanharam a noiva.
- Abanam
- A multidão grita: "kiss, kiss, kiss!"
- Eles dão um selinho e continuam abanando.
- Sobrevôo dos aviões da Força Aérea.
- A multidão grita "again, again, again" para o selinho
- mais um selinho
- A rainha cansa, e entra, todos seguem deixando os noivos novamente sozinhos. Abanam mais um pouco e acabou o espetáculo...momento de voltar.


Durante todo o tempo, a cada carro que saia, ou cavalaria que passava, o povo agitava as bandeirinhas animado. Teve lá seus momentos de ironia explícita, como quando vibraram com a passagem do carrinho que limpa o chão e, em seguida, cairam na gargalhada.

Aaron me explicou que o beijo, no terraço, simboliza que o casamento foi consumado. Lembrei que, em Portugal, num museu, aprendi que a corte ficava no quarto, na noite de núpcias, para testemunhar a relação sexual. Muito hilário! O beijo é, então, o momento alto do evento. Aquele que todo mundo quer testemunhar e todo o mundo quer fotografar. Até o Alf tava lá, louco para fotografar o beijo...mas é um momento KitKat...impossível de registrar se não for com máquinas super poderosas que fazem milhões de fotos por segundo ou um fotógrafo muito atento.
Esperando o beijo - Aaron fotografou
Para fotografar 1 beijo! Torci por um momento KitKat.
De forma geral, o evento e a sua segurança foram super bem organizados. Os policiais, sorridentes, educados e bem humorados, conversavam com as pessoas e opinavam sobre os acontecimentos numa boa. Aaron me ensinou a diferenciar um guarda comum de um chefe pelo chapéu. Com ironia, ele contou que os chefes são como políticos, ficam nos escritórios sem fazer nada e saem depois dizendo que fizeram muito.

Ir ao casamento real é como ir a um jogo de futebol, um show de rock ou qq outro evento com grande público. Se para Lynn aquilo é como a disneylandia só que melhor por ser a vida real, para mim é vida real relativa à realeza, mas não à realidade. Vamos combinar. Me senti num filme épico, fazendo figuração (sem as recompensas em cachê ou lanche).

Mais tarde, vi na tv que foram "some dozens of arrested" durante o evento. Muitos por simples bebedeira, outros por suspeita de tentativa de algum ato contra a família real. Assim que talvez tenha havido algum tipo de tentativa de manifestação contra o "abuso" deste casamento, mas de onde estava, entre um milhão de pessoas (conforme estimativa da polícia), eu só testemunhei a admiração e a diversão do povo com o espetáculo e os dois selinhos do casal real.

2 comentários:

  1. Legal teu relato! Imparcial, descrevendo os fatos. Sem dúvida é um evento histórico, e estiveste presente nele. Produto da tradição de e da cultura britânica. Daqui a algum tempo, constará nos “livros”. Quem sabe dizer como será o próximo casamento, em uns 30 anos, de um filho deles?... Tudo dependerá do desejo dos ingleses. Mudanças radicais não acontecem (a não ser pela força), por causarem sofrimento às pessoas, que perdem suas referências. Ainda mais partindo de povo conservador, amante das tradições. E nós nem conseguimos entender tudo isso: em 1500, quando iniciou o nosso “mundo civilizado”, eles já tinham séculos de tradição. E como já disseste antes, se emocionar com a emoção das pessoas... E, vamos combinar, foi bonito! Beijo, Míriam (de Porto Alegre).

    ResponderExcluir
  2. ah!! esse Alf é um sujeito de sorte kkkk estar ai bem no dia do casamento real vai dar uma boa reportagem hein?! adoro receber as notícias, beijos pros dois!!!

    ResponderExcluir